terça-feira, 11 de junho de 2013

A Soberania de Deus e o Evangelismo


Por Paul Helm


Muitas pessoas lutam com a soberania de Deus na eleição, porque acreditam que ela exclui a prática do evangelismo. Elas se perguntam: se as pessoas são ou não eternamente eleitas, que bem fará a pregação? Que diferença fará? No entanto, como a Escritura ensina, a soberania de Deus na eleição e a prática do evangelismo não são inimigas, mas amigas. O evangelismo está enraizado na eleição, e enquanto o homem planta e rega a semente do evangelho, Deus traz o crescimento.

Os Meios e os Fins

A soberania de Deus na salvação é mais clara e nitidamente vista no ensino da Escritura sobre a eleição. A eleição é "incondicional", isto é, a escolha de Deus não se baseia em nada de bom ou meritório do escolhido, algo louvável que tencione ou influencie Deus em sua escolha. Ao invés disso, a escolha de Deus é feita exclusivamente com base na Sua boa vontade.

Pode parecer que essa escolha faz qualquer atividade humana desnecessária. Como poderia uma criatura afetar algo? Mas considere este simples exemplo: suponha que Deus quer eternamente que você receba uma carta minha. Para que isso ocorra, outras coisas devem acontecer primeiro. Obviamente, eu devo escrever a carta, e em seguida dar um jeito de entregar a carta para você. Essas atividades - a escrita e o envio da carta - não acontecem à parte da vontade e propósito do Deus Todo Poderoso, mas como parte de Sua vontade e propósito. Elas são meios para o fim: você receber uma carta minha.

O que isso mostra? Mostra que nos desígnios divinos, meios e fins estão conectados. Talvez, ao eleger pessoas "em Cristo", Deus poderia ter imediatamente os glorificado. Mas de acordo com a Escritura, Ele não escolheu fazer isso. Em vez disso, ele usa meios. Ele nos apresenta as boas novas da salvação. Como Ele faz isso? Ele com certeza poderia ter feito isso transmitindo as boas novas de forma imediata à mente de alguém através de um sonho ou um "sussurro". Mas, na verdade, Ele o faz pela dupla ação da "Palavra" e do "Espírito".

A Escritura tem várias maneiras diferentes de deixar isso claro. Nos Evangelhos, tem a parábola do semeador: "Eis que o semeador saiu a semear". A semente é a Palavra, os vários tipos de solo são os diferentes tipos de corações. "Quanto ao que foi semeado em boa terra, este é aquele que ouve a palavra e a compreende. Ele dá fruto" - Mt 13v23. Portanto, existe a semente semeada, e existe fruto, de acordo com o tipo de solo. E isso representa ouvir a Palavra, entendendo-a, e sendo frutífero. Ninguém pode "entender" a Palavra sem ela ter sido "semeada" primeiro.

Aqui está um segundo exemplo. Vejamos as palavras da Grande Comissão encontrada no final do evangelho de Mateus: "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo que eu vos tenho mandado" - Mt 28v19-20. Jesus instrui ou ordena à Seus onze discípulos para "fazerem discípulos". E como eles farão isso? "Ensinando-os [as pessoas de todas as nações] a observar tudo o que vos tenho ordenado". Discipulado vem através do ensino que Cristo ordenou a Seus primeiros discípulos.

Paulo usa uma linguagem muito semelhante a de Cristo na parábola do semeador quando descreve seu ministério, tanto a importância quanto as limitações deste, ele escreve: "Eu plantei, Apolo regou, mas Deus deu o crescimento" - 1Co 3v6. O que ele está dizendo aqui? Que ele semeou a semente e seu companheiro o pregador Apolo acompanhou e - por meio do que ele ensinou - "regou" o que Paulo havia semeado. Mas quem fez crescer? Só Deus, através do Seu Espírito, deu vida - entendimento, fé e obediência - àqueles que se tornaram crentes em Corinto.

Da mesma forma, outras coisas que Paulo escreve ecoam o ensino da Grande Comissão de Jesus. Por exemplo, em Romanos capítulo dez, Paulo discute a relação entre invocar a Cristo, a confiar nele, e pregar a necessidade de rogar pelo Salvador:

"Como, pois, invocarão aquele em quem não creram?E como crerão naquele de quem não ouviram falar?E como ouvirão, se não houver quem pregue?E como pregarão, se não forem enviados?" - Rm 10v14-15.

As perguntas de Paulo respondem a si mesmas: sem a fé não haverá súplica; sem o ouvir não haverá fé; sem a pregação não há como ouvir e sem o envio não haverá pregação.

Todas estas passagens têm uma coisa em comum. Elas revelam a conexão, conexão estabelecida na sabedoria de Deus, entre comunicar o evangelho através da pregação - semeando, ensinando, chamando e regando - e a crença - fé e invocação do Senhor, a conversão a Cristo em seus diversos aspectos. Portanto, sob circunstâncias normais, a pregação e o ensino são os meios indispensáveis ​​do Senhor para trazer homens e mulheres à fé em Cristo. É claro que apenas a pregação não é suficiente. O próprio Deus deve preparar o coração, e pelo Seu Espírito só Ele pode "dar o crescimento". Mas Ele normalmente o faz "pela Palavra" proclamada pelos ministros do evangelho.

Eleição

Há uma passagem que acima de todas as outras na Bíblia claramente estabelece o âmbito desta interação entre meios e fins, a eleição de um lado e a glorificação de outro. Em Romanos capítulo oito, Paulo ensina que o propósito final de Deus para o Seu povo é a sua conformidade à imagem de Seu Filho. Como devemos entender isso?

A resposta de Paulo leva primeiramente o leitor de volta para "aqueles que são chamados segundo o seu propósito" (v. 28). Estes, segundo ele, são pré-conhecidos por Deus. Isto é, Ele sabe antes de nascerem quem são essas pessoas, pois Ele os escolheu. E Ele os predestina para serem conformes à imagem de seu Filho, Jesus Cristo (v.29). E o que esta predestinação envolve?

"E aos que predestinou, também os chamou, e aos que chamou, também os justificou, e aos que justificou, também os glorificou" (v. 30). Em poucas palavras, o apóstolo leva o leitor de eternidade a eternidade. Para enfatizar a certeza e a plenitude desse processo, Paulo usa o verbo no passado, como se todos os santos já estivessem desfrutando da glorificação. Mas para o nosso objetivo, precisamos destacar duas palavras que são essenciais e importantes: chamou e justificou. Elas salientam a necessidade do eleito de ser glorificado através da ação do Espírito de tirá-los da escuridão espiritual - o novo nascimento - e a necessidade deles mudarem sua condição, uma vez que seus pecados foram perdoados e a justiça de Cristo é imputada a eles.

Quando essas mudanças, regeneração e justificação, ocorrem? A resposta é: durante a vida terrena dos homens e mulheres. Por quais meios? Pela comunicação e apresentação do evangelho através da pregação e do ensino. Além disso, essas mudanças ocorrem pela ação soberana de Deus, o Espírito Santo, que abre os olhos para a compreensão, renova a vontade, concede o arrependimento e a fé que justifica, e permite o crescimento da virtude cristã, isto é, a santificação.

Vendo por Outro Lado

Assim, a pregação é normalmente um meio indispensável para chamar os eleitos de Deus. De forma paralela, ouvir e fazer esforço para compreender a pregação do evangelho é indispensável. Não faz sentido algum dizer: "Ou eu sou eleito ou não sou. De qualquer maneira, não há porquê ouvir uma boa pregação. Pois, se eu sou eleito, de um jeito ou de outro Deus vai me levar para o céu. E se eu não sou, eu posso encontrar maneiras melhores de gastar o meu tempo do que indo à igreja". Jesus, por exemplo, destacou a importância de ouvir com atenção: "Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça" - Mt 13v43. O que Jesus queria dizer? Que devemos ouvir atentamente, com o objetivo de adquirir "entendimento". Depois de Sua ressurreição, Jesus passou um tempo abrindo o entendimento dos discípulos para compreenderem a Escritura (v. Lc 24v45). Se estamos confusos e perplexos, devemos continuar a examinar a Escritura com todas as nossas forças - uma vez que que a Escritura interpreta a Escritura - e rogar a Jesus por entendimento. Paulo conta como os cristãos de Tessalônica vieram a fé em Cristo da seguinte forma: "Quando você recebeu a palavra de Deus, que de nós ouvistes, a recebestes, não como palavra de homens, mas como aquilo que realmente é, a palavra de Deus" - 1Ts 2v13.

A linha de raciocínio que diz: "Ou eu sou eleito ou não, de qualquer forma, é inútil atentar à Palavra de Deus", comete o mesmo erro da crença de que a eleição eterna de Deus faz a pregação desnecessária. Eles separam o fim da eleição - a renovação na imagem de Cristo - dos meios de comunicar o evangelho através da pregação e as outras maneiras que Deus ordenou. Isso divide o que Deus tem, de fato, unido. "O que Deus uniu não separe o homem".

Traduzido por: Lidiane Cecilio