segunda-feira, 10 de junho de 2013

Felicidade, seria uma busca inútil?


Após ter velejado por algum tempo, o pescador desembarca na praia. Sua pele bronzeada tem a cor do sol. Enquanto salta agilmente do barco, ele assovia uma canção própria dos velhos lobos do mar. A cabeça protegida por um chapéu de palha, cuja aba lhe assombreia o rosto, torma a cor de sua pele ainda mais escura. Os braços, torneados pela força das águas, puxam a pequena embarcação para terra seca, amarrando-a em uma árvore de que dorme preguiçosa, esparamando-se em galhos também preguiçosos. Depois de esticar a rede, o pescador caminha lentamente carregando meia dúzia de peixes.

O ricaço, de pele avermelhada e andar grã fino, veste uma camisa estampada. Tanto a pele quanto a camisa deixam clara  sua condição de turista; Ele observa tudo atentamente. Analisa a lida incessante do pescador e ao contar com os olhos a pequena quantidade de peixes conduzida por suas calejadas mãos, fica curioso. De imediato, ele procura conversa saudando o pescador, que responde com um sorriso, exibindo os dentes ainda brancos e perfeitos.

Como o pescador pára numa bica d’agua próxima, o ricaço pergunta:
- A pesca estava fraca hoje?
Não, responde o homem.
Sem entender, o ricaço tenta mais uma vez:
- Como não, você só pescou seis peixes.
- Pesquei o necessário, seis são suficientes para alimentar minha família.

Despedindo-se, o pescador segue sua jornada até uma pequena casa no lugar mais alto da praia. A casinha branca rodeada por palmeiras e cercada por um pequeno mas bem cuidado jardim transmite paz e tranqüilidade.

Um menino vem correndo alegremente seguido por outro menor; com dedicação eles tiram os peixes da mão do pai, carregando-os com orgulho. Eles são recebidos por um cão vira-lata que abana o rabo feliz, fazendo piruetas em volta do dono. Sem pressa, eles caminham aparentando ter todo o tempo do mundo. Um andar satisfeito, em total ausência de preocupação ou sinal de que precisem ir a algum lugar específico.

No dia seguinte a mesma cena de pesca se repete. Agora quem toma a iniciativa de cumprimentar o turista é o pescador:
- Bom dia!
Bom dia – responde o ricaço, ainda curioso e intrigado.
- Só pescou seis peixes outra vez?
- É.
- Por que você não pesca mais?
- Pra quê?
- Para vender e ganhar dinheiro
- Pra que?
- Para comprar um barco maior.
- Pra que?
- Para pescar muitos peixes e comercializá-los.
Pra que? Para ter muitos empregados.
- Pra que?
- Para ganhar mais dinheiro, dar mais conforto a sua família e ter um futuro garantido e feliz.
- Pra que?
- Para poder se aposentar, descansar, parar de trabalhar, viver sem preocupações e desfrutar a vida.
Olhando o turista com seus olhos negros e penetrantes, o pescador responde pela primeira vez com mais de duas palavras.
- Pra que vou ter toda essa trabalheira, moço, apenas para conseguir tudo aquilo eu já tenho agora?

Quantos de nós lutam a vida toda para obter felicidade, esquecendo que a possuímos quando não tínhamos nada daquilo pelo qual tanto batalhamos. Já fomos felizes com pequenas coisas. (A D)

Por Litrazini