quarta-feira, 18 de julho de 2018

O amor de Deus




Jesus não falou do amor segundo os termos gregos ‘storge’, ‘eros’, ‘philia’ ou ‘ágape’. O amor da qual Jesus fala é condicional, portanto, foge das definições que muitos livros de teologia apresentam: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15). O amor que Jesus exige é serviçal, sujeição ao seu senhorio…

O amor de Deus é condicional e não sentimental
Introdução
Qual a natureza do amor bíblico? Como entender a declaração: ‘Deus é amor’? Para essas perguntas há mil e uma respostas, inúmeros sermões, uma vastidão de livros e muitas definições, acerca do amor de Deus.
No seu livro ‘Os quatro amores’, no primeiro parágrafo da introdução[1], C. S. Lewis deixou registrado que acreditou que, no axioma ‘Deus é amor’, conforme anunciado pelo evangelista João, encontraria um caminho plano para o assunto, mas, ao que parece, pelas argumentações no seu livro, que Lewis não conseguiu encontrar um caminho plano.
Lewis deixou a Bíblia de lado e foi buscar nos termos gregos[2], que se traduzem por amor, a inspiração necessária para abordar o tema. Ele buscou nos termos στοργη (storge) afeição fraternal, φιλια (philia) amizade, έρως (eros) sexualidade e αγαπη (agapē) caridade, o conhecimento que o levou a uma concepção[3]própria do amor bíblico, e elegeu o agapē como o maior dos amores,  como uma virtude puramente cristã.
Mas, por que não se contentar com o axioma ‘Deus é amor’? Não há na Bíblia um caminho plano para o assunto?
O axioma anunciado pelo evangelista João: “… ὅτι ὁ θεὸς ἀγάπη ἐστίν” no grego ou, na língua portuguesa: “… porque Deus é amor” ou, na língua inglesa: “…because God is love” ou, em qualquer outro idioma ou dialeto, possui o mesmo valor.
O ‘agapē’, por ser escrito no grego, não é superior ao ‘love’ inglês, principalmente por causa do contexto onde é utilizado. Não é Lewis quem define o significado do amor bíblico e nem os lexicógrafos, mas, sim, o contexto onde foi utilizado.
O mesmo autor, que disse: ‘Deus é amor’, em seguida, definiu o amor de Deus:
“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).
“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nEle” (2 Jo 1:6).
Essa definição joanina será a bússola que nos conduzirá durante a análise do tema e que permitirá chegarmos a um entendimento seguro da natureza do amor de Deus para com os homens.

O amor dos homens para com Deus
Sobre o uso do termo amor, Jesus deixou explicito, de como amar a Deus:
“Mas, é para que o mundo saiba, que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).
Jesus amava a Deus, fazendo, especificamente, o que Ele ordenou e qualquer que diz amar a Deus, tem que fazer, exatamente, o que Jesus fez: obedecer a Deus!
Nesse mesmo sentido, qualquer que diz ‘amar’ a Jesus, tem que obedecer aos Seus mandamentos, pois, se não obedecer aos mandamentos de Jesus, significa que não O ama (Jo 14:21 e 23-24).
“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).
“Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama. não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” (Jo 14:23-24).
Jesus não falou do amor, segundo os termos gregos ‘storge’, ‘eros’, ‘philia’ ou, ‘ágape’. O amor, do qual Jesus falou, é condicional, portanto, foge das definições que muitos livros de teologia apresentam:
“Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15).
O amor que Jesus exige é serviçal, sujeito ao seu senhorio, conforme expresso no seu convite:
“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11:28-30).
“E por que me chamais, SENHOR, Senhor, se não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46).
Qualquer que se achegar a Cristo, precisa tomar sobre si o jugo de Jesus, se fazendo servo, ou seja, é o mesmo que humilhar-se a si mesmo. “E o que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar, será exaltado” (Mt 23:12).

O amor de Deus para com os homens
Ao fazer o que Deus manda, o homem ama a Deus e, em contra partida, o homem estará sob o amor de Deus, ou seja, sob o seu cuidado, como se lê:
“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” (Jo 15:10).
A definição do amor bíblico foi dada por Deus ao povo de Israel, por intermédio de Moisés, conforme expresso no livro do Êxodo:
“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Ex 20:6).
Assim, decorre de Êxodo 20, verso 6, a declaração: “Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).
Os que guardam os mandamentos de Deus, são os que O amam, portanto, Deus ama os que O amam, ou seja, faz misericórdia aos que guardam o Seu mandamento.
Voltemos à definição joanina do amor de Deus:
“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).
O amor de Deus está expresso em seus mandamentos e os homens, por sua vez, amam a Deus, obedecendo-O. Quando Deus dá um mandamento, há um objetivo: a obediência de um coração puro.
“Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida” (1 Tm 1:5)
Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo não falou do fim da lei, antes, do objetivo do mandamento de Deus: a obediência. O termo grego τέλος (telos), traduzido por ‘fim’, na verdade significa ‘finalidade’, ‘objetivo’. O mandamento que o apóstolo Paulo destaca, refere-se à doutrina do evangelho (1 Tm 1:3).
O mandamento de Deus expressa o Seu cuidado e tem por objetivo a obediência do homem e quando a obediência ocorre, o homem estará ao abrigo do cuidado de Deus.
O leitor deve estar atento, pois, algumas vezes, os escritores bíblicos fazem referência ao amor de Deus e outras vezes, ao amor do homem. Por exemplo, neste verso da epístola de João, o amor em destaque é o do homem:
“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena e o que teme não é perfeito em amor” (1 Jo 4:18).
O amar que não remete ao medo, não diz do amor de Deus, mas, sim, do amor do homem. O amor como obediência, não tem espaço para o medo, antes a perfeita obediência lança fora o medo. O medo só vem à tona por causa da pena e, qualquer que tem medo, é porque não é um obediente perfeito.
O salmista, no Salmo 71, faz referência ao mandamento de Deus que salva, expressão do amor de Deus:
“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer, continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” (Sl 71:3).
Um exemplo de amor bíblico, ocorre no evento em que Jesus se encontra com o jovem rico. Ao amar o jovem rico, Jesus deu-lhe um mandamento: – “Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz e segue-me” (Mc 10:21).
Caso o jovem desse ouvidos à ordem de Cristo, teria obedecido ao Mestre. Em outras palavras, haveria amado a Cristo e seria amado por Deus. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado de meu Pai, eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).
Semelhantemente, Deus, ao amar homens de todas as tribos, povos e línguas (mundo), deu o seu Filho Unigênito, pois, em Cristo, está implícito o Seu mandamento, um mandamento que salva: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo 3:23), visto que o amor de Deus é especifico:
“Nisto se manifesta o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos” (1 Jo 4:9).
“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos” (2 Jo 1:6).
“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).
O apóstolo João destaca que os cristãos só amam a Deus, porque Deus os amou primeiro: “Nós o amamos a ele, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:19). O amor de Deus para com a humanidade foi manifesto, quando Ele enviou o Seu Filho Unigênito ao mundo, porém, o amor de Deus foi estabelecido na fundação do mundo, uma vez que o cordeiro de Deus foi morto, desde a fundação do mundo (Ap 13:8).
Só é possível obedecer, quando há um mandamento, uma vez que, primeiro Deus deu o Seu mandamento em Cristo, daí o ‘amamos (obedecemos) a Ele, porque Ele nos amou (deu um mandamento) primeiro’.
Deus estabeleceu o seu mandamento, já na fundação do mundo. Deus não tem que provar nada e nem deu provas, antes, ‘estabeleceu’ o Seu amor, quando fundou o mundo, uma vez que o cordeiro foi morto, desde a fundação do mundo e o evidenciou aos olhos do mundo, na plenitude dos tempos, quando Cristo veio e morreu na cruz!
“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores”(Rm 5:8).
O apóstolo Paulo, ao abordar o amor de Deus, evidencia que Ele estabeleceu o seu amor para com os cristãos, no fato de Cristo ter morrido, quando ainda éramos pecadores. Os tradutores utilizam o verbo ‘provar’, para traduzir as variantes συνισταω (sunistao), συνιστανω (sunistano) ou συνιστημι (sunistemi) [4].
A ideia de um amor que admite prova, é decorrente do humanismo, movimento cultural/filosófico que se apegou aos conceitos filosóficos platonista e aristotélico, e que, em muitos casos, deixou de lado o sentido da linguagem do homem do campo, da antiguidade, que permeava as relações aristocráticas.
Cristo, por sua vez, ao fazer uso do termo αγαπη (agapē), não o fez, no sentido de caridade, mas, no sentido de honra. Para que o mundo soubesse que Cristo honrou o Pai, Ele fez, especificamente, o que o Pai ordenou: “Mas, é para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).
Apesar dos estudiosos conhecerem a essência do termo grego αγαπη (agapē), quando abordam o tema ‘amor’ na Bíblia, dão um novo significado ao termo e fazem um desserviço ao evangelho. Observe:
“Amor (gr. agape) (1 Pe 4.8; Rm 5.5, 8; 1 Jo 3.1; 4.7, 8,16; Jd 21) Esta palavra raramente era usada na literatura grega, antes do Novo Testamento. E quando isso acontecia, ela era usada para expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, de oferecer hospitalidade e ser caridoso”. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao Alcance de Todos, Editores Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 701.
“agapaõ que, originalmente, significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente, se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção, necessariamente nítida, quanto ao significado (…) 4. Não está clara a etimologia de agapaõ e agapè. O vb. agapaõ aparece, frequentemente, na literatura gr. de Homero em diante, mas o subs. agapè é uma construção, que só aparece no Gr. posterior. Foi achada uma só referência fora da Bíblia: ali, a deusa Isis recebe o título de agapè (P. Oxy, 1380, 109; século II d.C.), agapaõ é frequentemente uma palavra descolorida em Grego e aparece, com frequência, como alternativa para, ou sinônimo com, eraõ e phileõ, com o significado de “gostar de”, “tratar com respeito”, “estar contente com”, e “dar as boas-vindas”. Quando, em raras ocasiões, se refere a alguém que foi favorecido por um deus (cf. Dio. Cris., Orationes 33, 21), fica claro que, diferentemente, de eraõ, não se refere ao anseio humano por posses ou valores, mas, sim, uma iniciativa generosa de uma pessoa por amor à outra”. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown] — 2ª ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000, págs. 113 e 114.
Por causa da má leitura do termo αγαπη (agapē), quando empregado nas Escrituras, surgiu a ideia de que o amor de Deus é incondicional[5], ou seja, que Deus não exige nenhum quesito para amar e nem espera reciprocidade. Por outro lado, as Escrituras apresentam o amor de Deus, em outros termos:
“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).
O amor de Deus para com o homem é condicional, pois Ele ama aos que O amam. É condicional por haver um quesito e demanda reciprocidade. Concluir que o amor de Deus é incondicional, geralmente decorre da má leitura dos seguintes versículos:
“Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou (…) Nós o amamos a Ele, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:10 e 19).
“Mas, Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8).
Só é possível ao homem amar a Deus porque Ele amou primeiro, ou seja, se Deus não houvesse primeiramente dado um mandamento aos homens, seria impossível aos homens amarem a Deus. Daí a definição joanina:
“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).
A essência do amor bíblico é a obediência à palavra de Deus, enquanto as elucubrações humanas entendem o amor, a partir de termos gregos e daí surgem só especulações, como: amor-doação, amor-entrega, que sai de si, em benefício do outro, capaz de doar-se, dar a vida, amor que faz tudo pelo amado, amor incondicional, amor que também é perdão, amor-caridade, misericórdia, etc.
Observe a exposição de Bancroft, acerca do amor de Deus:
“Assim como existe uma mente mais alta que a nossa, semelhantemente, existe um coração maior que o nosso. Deus não é, simplesmente, Aquele que ama; Ele é igualmente o Amor que é amado. Há uma infinita vida de sensibilidade e afeição em Deus. Deus tem sensibilidade e isso, em grau infinito. O sentimento por si só, porém, ainda não é amor. O amor implica não apenas em receber, mas em dar, não meramente em emoção, mas em concessão…”  Bancroft, Emery H., Teologia Elementar, Doutrinária e Conservadora, Editora Batista Regular, São Paulo, 2001, pág. 73.
A definição de Bancroft não passa de tergiversações e elucubrações, sem nenhuma fundamentação bíblica, pois trata o amor de Deus do ponto de vista da sensibilidade e da afeição humana.
Um exemplo claro do amor de Deus, nas Escrituras, encontramos na pessoa de Naamã, o capitão do exército do rei da Síria. Naamã não nutria nenhuma sensibilidade ou afeição pelo Deus de Israel, visto que ele nem mesmo sabia que somente em Israel havia Deus.  Ao saber que teria de mergulhar sete vezes no rio Jordão, a reação de Naamã foi de indignação.
Do mesmo modo, Deus não fez concessões e nem se sensibilizou com Naamã, por causa da sua enfermidade. Se Deus não se sensibilizou para atender aos milhares de leprosos que haviam em Israel, não seria o caso de se sensibilizar por um único homem estrangeiro (Lc 4:27).
O amor de Deus foi demonstrado por intermédio de um mensageiro do profeta, que disse: – “Vai e lava-te sete vezes no Jordão, que a tua carne será curada e ficarás purificado” (2Rs 5:10). Deus não se ocupou com o fato de Naamã ficar indignado e nem com a ideia que ele possuía acerca de Deus e do seu profeta (2Rs 5:11), mas, sim, em que se obedecesse à Sua palavra.
Deus não se sensibilizou e nem sentiu qualquer afeto pela viúva de Sarepta, de Sidom, pois, em igual situação, estavam muitas outras viúvas em Israel. Ele atendeu a viúva, por ela se dispor a atender a ordem de Deus: sustentar o profeta de Deus, mesmo não tendo recursos para fazê-lo: “Levanta-te e vai para Sarepta, que é de Sidom, e habita ali; eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente” (1Rs 17:9).
Devemos conhecer (tornar um com Ele) e prosseguir em conhecer ao nosso Deus (Os 6:3), pois o que Ele requer é a obediência:
“Porque eu quero a misericórdia e não o sacrifício e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6).
“Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22).
Mas, como ler o verso 16, do capítulo 3, do evangelho de João?
“Porque Deus amou ao mundo de tal[6] maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).
Como temos a definição joanina: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos”. (1 Jo 5:3), para compreendermos o verso 16, de João 3, temos que localizar onde está expresso o mandamento de Deus que os homens devem guardar.
Como desconhecem a natureza do amor de Deus, muitos intérpretes da Bíblia vislumbram, equivocadamente, que, no ato de Deus dar o Seu Único Filho, tem-se prova da intensidade do amor de Deus.
Considerando o texto na língua grega, verifica-se que Jesus estava explicando a Nicodemos como Deus amou o mundo: deu o Seu Filho único, o que é completamente diferente da ideia de que Deus amou intensamente o mundo. Ao dar o Seu Filho, temos como Deus amou o mundo, não um vislumbre da intensidade do amor de Deus.
“οὕτως[7] γὰρ[8] ἠγάπησεν[9] ὁ θεὸς τὸν κόσμον, ὥστε τὸν υἱὸν τὸν μονογενῆ ἔδωκεν ἵνα πᾶς ὁ πιστεύων εἰς αὐτὸν μὴ ἀπόληται ἀλλ’ ἔχῃ ζωὴν αἰώνιον” (João 3:16), Westcott and Hort.
“assim[2] Pois[1] amou[4] deus[3] o mundo, que o[2] Filho[3] único[4] deu[1], para que todo o que crê em ele não pereça mas tenha vida eterna”. Novo Testamento Interlinerar,  grego-português, Barueri, SP, SBB, 2004.
O texto, na língua grega, não tem um advérbio que modifique o sentido do verbo ἠγάπησεν (amou) intensificando-o, antes, temos um advérbio explicativo: οὕτως (deste modo, assim, desta maneira). Entretanto, apesar de não termos um advérbio que intensifique a ação do verbo, os tradutores passaram a considerar que o termo grego ἠγάπησεν (ēgapēsen), traduzido por ‘amou’, demonstra intensidade.
O termo ἠγάπησεν ocorre 12 vezes no Novo Testamento, incluindo João 3, verso 16: Marcos 10:21; Lucas 7:47; João 13:1; João 15:9; Efésios 2:4; Efésios 5:2 e 25; 2 Pedro 2:15; 1 João 4:10-11 e 19 e, em nenhuma dessas referências, o termo ἠγάπησεν denota amor com intensidade.
Vale destacar que, no capítulo 2 da carta de Paulo aos Efésios, verso 4, o apóstolo faz referência a Deus como rico em misericórdia, em virtude do seu grande amor. Mesmo fazendo referência à grandeza do amor de Deus, dimensionando-o, o apóstolo dos gentios afirma somente que Deus amou, portanto, não faz referência à ideia de intensidade.
O apóstolo Paulo ao fazer referencia aos elementos que utilizamos para dimensionar um objeto (largura, comprimento, altura e profundidade), demonstra que o amor de Deus é um conhecimento invariável e plenamente compreensível “Poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” (Ef 3:18).
“Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou” (Ef 2:4).
Percebe-se que os tradutores do Novo Testamento seguiram a tendência dos tradutores da Septuaginta[10], que utilizaram o termo grego αγαπαω. para verterem o termo hebraico עגב, donde a concepção de intensidade, quando da tradução do termo ἠγάπησεν, no verso em comento, possivelmente surgiu.
Se o leitor seguir a definição dada pelo evangelista João e procurar o mandamento de Deus no versículo em análise, verá que Deus deu o Seu Filho com uma finalidade: para que, qualquer (judeu ou grego) que crer em Cristo, não pereça, mas tenha a vida eterna. Em crer em Cristo está o mandamento de Deus, como se lê:
“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).
Portanto, o amor de Deus é objetivo[11]: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, como já lemos:
“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).

[1] “Deus é amor”, diz o apóstolo João. Quando tentei começar a escrever este livro pensei que seu axioma iria fornecer-me um caminho plano, através de todo o assunto. Estava certo de poder dizer que o amor humano só merecia ser assim chamado, naquilo em que se assemelhava àquele Amor que é Deus” Lewis, C. S., Os quatro amores, 2ª ed., São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009.
[2]  Para os eruditos, o amor possui quatro vertentes, conforme os termos gregos utilizados para fazer referência ao amor: Storge, Eros, Philia e Ágape. Analisam o amor através da mitologia grega ou, através dos escritos de Platão (Eros) ou, procuram compreender o amor através da percepção de Aristóteles (philia), e, quando se deparam com a Bíblia, alegam que as ideias ditas cristãs devem ser analisadas através do amor ‘ágape’.
[3] “Deus é amor. De novo: “Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou” (I João 4:10). Não devemos principiar com misticismo, com o amor da criatura por Deus, ou com a maravilhosa antecipação da fruição de Deus, concedida a alguns na vida terrena. Começamos no verdadeiro inicio, com o amor, como a energia Divina. Este amor primevo é o amor-Doação. Em Deus não existe fome a ser satisfeita, apenas fartura que deseja doar. A doutrina de que Deus não tinha necessidade de criar não é uma peça de especulação acadêmica, mas essencial”. Lewis, C. S., Os quatro amores, 2ª ed., São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009.
[4] “4921 συνισταω (sunistao) ou (fortalecido) συνιστανω (sunistano) ou συνιστημι (sunistemi), de 4862 e 2476 (que inclui suas formas concomitantes); TDNT – 7:896, 1120, v. 1) estabelecer com, colocar no mesmo lugar, juntar ou unir 1a) permanecer com (ou próximo) 2) colocar alguém com outro 2a) apresentando-o ou introduzindo-o 2b) compreender 3) colocar junto por composição ou combinação, ensinar pela combinação e comparação 3a) mostrar, provar, estabelecer, exibir 4) colocar com, unir as partes num todo 4a) ser composto de, consistir”, Dicionário Bíblico Strong.
[5] “Mas o amor-Doação divino – o próprio Amor operando no homem – é inteiramente desinteressado e deseja o que é, simplesmente, melhor para o ente amado” Lewis, C. S., Os Quatro Amores.
[6] “Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que não morra quem nele acredita, mas tenha a vida eterna”. Nova Bíblia Pastoral, Editora Paulus, 2014.
[7] “3779 ουτω (houto) ou (diante de vogal) ουτως (houtos) de 3778; adv 1) deste modo, assim, desta maneira”, Dicionário Bíblico Strong.
[8] “1063 γαρ (gar), partícula primária; conj 1) porque, pois, visto que, então”, Dicionário Bíblico Strong.
[9] “25 αγαπαω (agapao) talvez de agan (muito) [ou cf 5689 עגב ]; TDNT 1:21,5; v 1) com respeito às pessoas 1a) receber com alegria, acolher, gostar muito de, amar ternamente 2) com respeito às coisas 2a) estar satisfeito, estar contente sobre ou com as coisas. Sinônimos, ver verbete 5914”; “05689 agab (עגב), uma raiz primitiva, grego 25 αγαπαω; DITAT, 1559; v 1) (Qal) ter afeição desordenada ou cobiça 1a) cobiça (particípio) 1b) amantes (particípio como subst)”, Dicionário Bíblico Strong.
[10] “Na LXX, agapaõ se emprega, de preferência, para traduzir o verbo heb. Ãhèb. O subs. agapè acha aqui a sua origem, ao representar o Heb. ’ah bâk. O vb. Ocorre, muito mais, frequentemente, do que o subs. ’ahèb e pode se referir, tanto a pessoas, como a coisas, e denota, em primeiro lugar, o relacionamento de seres humanos entre si, e, em segundo lugar, o relacionamento entre Deus e o homem (…) Na LXX (Septuaginta), surge diante de nós um quadro bem diferente’; phileõ, ocorre raras vezes, enquanto o vb. agapaõ, e o subs. agapè (doutra forma, quase, inteiramente, desconhecido no Gr.) se acham a cada passo. Não é possível discernir se se empregam conforme regras fixas, pois phileò (30 vezes), tal como agapaò (cerca de 263 vezes), geralmente traduz o Heb. ahèb (e.g. Gn 27:4 e segs.; 37:4 [cf. 37:3]; Is 56:10; Pv 8:17 [cf. 8:21]). Embora o Heb. tenha uma gama inteira de palavras para expressar o conceito contrário do ódio (enquanto a LXX só tem a palavra única miseõ – Inimigo, art. miseõ), tem, virtualmente, a única raiz .ahèb à sua disposição para a gama de sentimentos, que se associam com o amor. O Gr., de outro lado, tem várias raízes e palavras derivadas para expressar as várias matizes do amor: philia (38 vezes), que geralmente traduz ‘aheb, ’ahabâh, é comparativamente rara, embora philos (cerca de 181 vezes), que, geralmente, traduz rèa, embora, frequentemente, sem equivalente heb., seja mais comum na LXX”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown], 2ª ed., São Paulo, Vida Nova, 2000, págs. 114 e 121.
[11] “A névoa do subjetivismo, permeado pelo idealismo, que as concepções religiosas de nossos dias prescrevem aos seus seguidores, através do termo ‘amor’, não guarda relação com o imperativo grave e objetivo definido no N. T., como: “Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Lc 16:13)”Crispim, Claudio, in A obra que Demonstra Amor a Deus, São Paulo, NewBook, 2012, pág 78. “Tanto o amor de Deus, quanto o amor a Deus, é objetivo: Cristo é o amor de Deus e quem O obedece, O ama. Quando compreendemos o amor, segundo o proposto por Cristo e pelos apóstolos, saímos do campo do subjetivismo. O amor deixa de ter relação com o que se passa no íntimo do sujeito pensante: julgamentos, sentimentos, hábitos, paradigmas, etc., de cada indivíduo, visto que o mandamento de Deus não sofre variação”, idem, pág. 108.

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