segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A BLASFÊMIA CONTRA O ESPÍRITO - CALVINO

Revisão e versos acrescentados (RA) por: Helio Clemente



Aqueles, porém, cuja consciência está convicta de que o que repudiam e impugnam é a Palavra de Deus, contudo, não cessam de impugná-la, lemos que esses blasfemam contra o Espírito, uma vez que estão a lutar contra a iluminação que é obra do Espírito Santo. Tais eram alguns dentre os judeus que, embora não pudessem resistir ao Espírito que falava através de Estêvão, no entanto porfiavam em resistir.

Atos 6,9-10: “Levantaram-se, porém, alguns dos que eram da sinagoga chamada dos Libertos, dos cireneus, dos alexandrinos e dos da Cilícia e Ásia, e discutiam com Estêvão; e não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito, pelo qual ele falava”.



Não há dúvida de que muitos dentre eles estavam fazendo isso arrebatados pelo zelo da lei; mas, é evidente, havia outros que se enfureciam contra o próprio Deus por maligna impiedade, isto é, contra um ensino que não desconheciam provir de Deus. Tais eram também os próprios fariseus, contra os quais o Senhor investe, os quais, com o fim de desacreditar o poder do Espírito Santo, o infamavam com o nome de “Belzebu”.



Mateus 9,34: “Mas os fariseus murmuravam: Pelo maioral dos demônios é que expele os demônios”.

Mateus 12,24: “Mas os fariseus, ouvindo isto, murmuravam: Este não expele demônios senão pelo poder de Belzebu, maioral dos demônios”.


Este, pois, é o espírito de blasfêmia, quando a ousadia do homem se atira deliberadamente ao ultraje do nome divino. A isto acena Paulo, quando ensina haver alcançado misericórdia porque havia cometido tais transgressões em ignorância e por incredulidade, em virtude da qual doutra sorte teria sido indigno da graça do Senhor.

1 Timóteo 1,13: “A mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade”.

Se a ignorância unida com a incredulidade fez que ele obtivesse perdão, segue-se daqui que não há lugar para perdão onde à incredulidade se acrescenta o conhecimento, de sorte que aqui não se exprime alguma falta particular, mas o total afastamento de Deus e, por assim dizer, a apostasia do homem todo.

Portanto, quando menciona aqueles que decaíram depois que foram uma vez iluminados; provaram o gosto do dom celestial; fizeram-se participantes do Espírito Santo; provaram também a boa palavra de Deus

e os poderes do mundo vindouro, deve-se entender aqueles que, de deliberada impiedade, sufocaram a luz do Espírito; rejeitaram o sabor do dom celestial; alienaram-se da santificação do Espírito; calcaram aos pés a Palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro.

Hebreus 6,4-6: “É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia”.


E, para que mais expressasse essa definida determinação de impiedade, acrescentou depois, expressamente, em outro lugar, o advérbio deliberadamente.


Hebreus 10,26: “Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados”.


Ora, quando nessa passagem diz que nenhum sacrifício é deixado àqueles que porventura pecam deliberadamente depois de haver recebido o conhecimento da verdade, não está negando que Cristo seja o perpétuo sacrifício para expiar as iniquidades dos santos, o que quase toda a Epístola proclama eloquentemente quando se põe a explicar o sacerdócio de Cristo, porém, diz que não resta nenhum outro quando se rejeita a este. Negada, porém, expressamente a verdade do evangelho, também está rejeitado esse sacrifício.

O fato de parecer a alguns excessivamente duro e estranho à clemência de Deus privar inteiramente da remissão a alguém que recorra a implorar a misericórdia do Senhor, isso se explica facilmente. Ora, o autor da Epístola aos Hebreus não está dizendo que o perdão lhes é negado, caso se voltem para o Senhor, mas apenas nega que possam chegar ao arrependimento, visto que, na realidade, em virtude de sua ingratidão, pelo justo juízo de Deus foram feridos de eterna cegueira.

Esta ameaça do Profeta é do mesmo teor: “Quando clamarem, não darei ouvidos”.

Jeremias 11,11: “Portanto, assim diz o SENHOR: Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; clamarão a mim, porém não os ouvirei”.


Zacarias 7,13: “Visto que eu clamei, e eles não me ouviram, eles também clamaram, e eu não os ouvi, diz o SENHOR dos Exércitos”.

Pois, com tais expressões não se designa verdadeira conversão nem genuína invocação de Deus, mas aquela ansiedade dos ímpios, compelidos pela qual são obrigados, em casos extremos, a levar em conta o que antes negligenciavam tranquilamente, a saber, que neles não há bem algum, senão que todo bem está no favor divino, com o qual nos assiste.

Hebreus 12,17: “Pois sabeis também que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado”.

Mas não imploram esse favor senão quando percebem que o mesmo lhes foi subtraído. E assim outra coisa não tem o Profeta em mente pelo termo “clamaram”, e o Apóstolo pelo termo “lágrimas” acima, senão aquele horrível tormento que de desespero abrasa e tortura os ímpios.

Vale a pena observar isto diligentemente, pois de outra sorte Deus se poria em conflito consigo mesmo, o qual, através do Profeta, proclama que haverá de ser propício tão logo o pecador tenha voltado para ele.

Ezequiel 18,21-22 (*): “Mas, se o perverso se converter de todos os pecados que cometeu, e guardar todos os meus estatutos, e fizer o que é reto e justo, certamente, viverá; não será morto. De todas as transgressões que cometeu não haverá lembrança contra ele; pela justiça que praticou, viverá”.

(*) – Este verso acima constitui uma impossibilidade total para o ímpio, somente aqueles que foram justificados por Deus, em Cristo, podem ter suas obras aceitas por Deus como justas e dignas de galardão, mas nunca como base para a justificação, pois jamais homem algum conseguirá cumprir todos os estatutos e leis de Deus de forma perfeita, neste caso a morte de Cristo terá sido em vão.