quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A REFORMA E O BOI DE BRIGA




As excelentes aproximações de cristãos que conhecem a Reforma Protestante e reconhecem suas bases na Escritura Sagradas são como festas de louvor e ação de graças. São festas santas em que a obra de Cristo é exaltada, como disse Calvino citando Oséias: “‘Tira a iniqüidade’, diz ele – eis a remissão dos pecados! ‘E ofereceremos como novilhos os sacrifícios de nossos lábios’ – eis a satisfação!”

Contudo, no contraponto, há figurações de outros que seguem o passo sem saber para onde. Parece mais festa de circo ou parque de diversões no arraial: rojões, banda ou violeiros, corrida do boi, e os inevitáveis rasga roupas. “Dou um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra não sair dela” – diz o cabra macho. Nas ruas, isso parece até coisa bonita quando o boi não investe e dá uma carreira no matuto.

É claro que, desde o início da Reforma, havia os que davam marradas, e Calvino não fugiu à luta, pegando os bois pelos chifres. Sadoleto, Servetus e outros sentiram a doma do reformador. O próprio apóstolo Paulo deu nome aos bois: por exemplo, Demas, Alexandre, o latoeiro, etc. Judas, “servo de Cristo e irmão de Tiago”, que também não tinha medo de boi matreiro, exortou-nos a batalhar “diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”. Mas ainda que condenasse os homens ímpios que transformavam a graça de Deus em libertinagem, brutos sem razão, ele também advertiu: “Contudo, o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo e disputava a respeito do corpo de Moisés, não se atreveu a proferir juízo infamatório contra ele; pelo contrário, disse: O Senhor te repreenda!” (Judas 9.)

Adversários são herança da fé, como o Senhor Jesus preveniu: “Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros” (João 15.20).  Mas lembre-se do que ele também disse: “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mateus 5.44-45).

Calvino (Institutas 3.7.6) diz:

O Senhor preceitua que se deve fazer o bem a todos em geral, os quais em grande parte são muitíssimo indignos, se forem estimados em seu próprio mérito. Mas aqui a Escritura nos apresenta uma excelente razão, quando ensina que não se deve atentar para o que os homens mereçam em si próprios, pelo contrário, deve-se levar em conta a imagem de Deus em todos, à qual devemos toda honra e amor. Entretanto, essa mesma imagem deve ser mais diligentemente observada nos domésticos da fé [Gl 6.10], até onde foi ela renovada e restaurada pelo Espírito de Cristo.

E em outro lugar, cita Agostinho: “É de admirar-se”, diz ele, “a paciência de Cristo, porque admitiu a Judas ao banquete no qual instituiu a figura de seu corpo e sangue e deu aos discípulos”. (Institutas 4.17.21).

A diferença do trato bíblico e do trato ímpio é que o servo de Cristo enfrenta cara a cara os repreensíveis e os inimigos da fé, como Paulo fez com Pedro e a Elimas, o mágico.  Não se faz calar alguém com a força do pensamento à distância nem com a de argumentos, pois o coração rebelde só vê o que está presente e próximo. Quando houver necessidade de que, como disse Van Til,  uma voz se levante “em defesa das pequenas ovelhas de Jesus”, será bem que haja um contato pessoal, por carta ou telefone (lembrando sempre de que cartas são documentos e telefonemas são vazios de testemunho). No caso de a pessoa repreendida ser um irmão, poderá se arrepender e ter a paz restaurada; caso contrário, deverá ser denunciada à igreja para disciplina. No caso de ser um impenitente, então será preciso que seja exposto para vergonha sua e proteção dos irmãos. No entanto, isso deverá ser feito com o respeito devido a todo ser humano, por causa da imagem de Deus, nele deformada e, em nós, reformada à imagem de Cristo.

Paulo coloca bem isso em 2Coríntios 10.1-18, quando roga, invocando a “mansidão e benignidade de Cristo”, que não tivesse de ser ousado quando presente com os crentes daquela igreja. Ele preferia ser humilde em presença e ousado para servi-los à distância.

Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo.

Mas, se preciso fosse, queria que todos os crentes estivessem prontos, como ele estava disposto, “para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa submissão”. E diz ainda: “para que não pareça ser meu intuito intimidar-vos por meio de cartas” e “Considere o tal isto: que o que somos na palavra por cartas, estando ausentes, tal seremos em atos, quando presentes”. Sobretudo, a preocupação do apóstolo não é com sua própria figura ou apresentação, nem com sua “missão”, mas com a medida da glória de Cristo. Não temia ultrapassar os seus limites, uma vez que ele mesmo havia pregado o evangelho aos coríntios, considerando-os dentro de sua esfera de ação juntamente com a tarefa de ir além das fronteiras. Entretanto, tinha um cuidado com o equilíbrio da ousadia e da humildade. A chave? “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor. Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, e sim aquele a quem o Senhor louva”.

Wadislau Martins Gomes