terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O que é o Evangelho ? – Charles Spurgeon

Há muitas respostas para esta pergunta e, possivelmente, aqui mesmo em minha audiência (apesar de crer que somos bem uniformes em nossas convicções doutrinárias), pode-se falar em duas ou três respostas rapidamente disponíveis a pergunta: O que é pregar o Evangelho? Procurarei, por tanto, responder de acordo com meu próprio entendimento, com a ajuda de Deus; e se acontecer de não ser uma resposta correta, vocês têm completa liberdade de encontrar uma resposta melhor conforme seu próprio discernimento.

Pregar o Evangelho é expor cada doutrina presente na Palavra de Deus, e dar a cada verdade sua própria importância. Os homens podem pregar uma parte do Evangelho; podem pregar unicamente uma doutrina do Evangelho; e eu não diria que um homem não prega o Evangelho caso se atenha apenas a doutrina da Justificação pela Fé – “porque pela graça sois salvos, por meio da fé”. Eu o consideraria um ministro do Evangelho, porém é alguém que não anuncia todo o Evangelho. Não se pode afirmar que um homem prega todo o Evangelho de Deus se ele toma partido, consciente e intencionalmente, de uma só verdade de nosso bendito Deus. Este comentário deveria ser muito penetrante e explodir na consciência de muitas pessoas, que, quase como uma questão de princípio, não compartilham certas verdades com as pessoas, devido o fato de elas temerem tais verdades. Numa conversa recente, há cerca de duas semanas, um eminente cristão me dizia: “senhor, sabemos que não devemos pregar a doutrina da eleição, já que ela não tem a capacidade de converter pecadores”.  

Eu lhe respondi: “Mas, quem se atreve a identificar falhas na verdade de Deus? Você concorda comigo que a eleição é uma verdade e, no entanto, afirma que não se deve pregá-la! Eu não me atreveria a fazer afirmação semelhante! Considero ser uma arrogância suprema atrever-se a dizer que uma doutrina não deve ser pregada, quando Deus em sua suprema sabedoria desejou revelá-la aos homens. Além do que, me pergunto: ‘O objetivo de todo o Evangelho é converter aos homens?’. Existem certas verdades que Deus entregou para a conversão dos pecadores; porém, acaso não existem outras verdades destinadas a trazer consolo aos santos? Não deveriam estas verdades ser objetos do ministério da pregação, igualmente as demais? Devo tomar partido de algumas e descartar as outras? Não! Deus disse: ‘Consolai; consolai meu povo!’; se a eleição consola o povo de Deus, então devo pregá-la”.

De qualquer forma, não estou convencido de que a doutrina da eleição não seja capaz de converter pecadores. O grande Jonathan Edwards nos diz que, no momento culminante de um de seus avivamentos, estava pregando sobre a soberania de Deus tanto na salvação, como na condenação do homem, e mostrava que Deus era infinitamente justo se enviava os homens ao Inferno; que Ele era infinitamente misericordioso se salvava alguém; e que tudo provinha de sua livre e soberana graça. E ele afirma: “Não tenho encontrado nenhuma outra doutrina que promova tanta reflexão: nada encontra um melhor caminho ao coração do homem que a pregação desta verdade!”. O mesmo pode ser dito de outras doutrinas. Existem certas verdades na Palavra de Deus que estão condenadas ao silêncio, pois segundo o entender de alguns, elas não serviriam para este ou aquele fim. Todavia, cabe a nós julgar a verdade de Deus? Devemos colocar Suas Palavras na balança e dizer: “Isto é bom, isto é mal”? Devemos pegar a Bíblia, amputá-la e dizer: “Isto é palha, e isto é grão!”? Devemos nos desfazer de algumas verdades alegando “não me atrevo a pregá-las!”? Não! Deus não deseja isso! Qualquer coisa que esteja escrita na Palavra de Deus foi registrada para a nossa instrução: e toda ela é útil, seja para repreensão ou consolo, ou para nos instruir na justiça. Nenhuma verdade da Palavra de Deus deve ser ocultada, antes, cada porção dela deve ser pregada segundo seu sentido próprio.

Alguns homens limitam-se, de forma intencional, a quatro ou cinco tópicos que pregam de maneira contínua. Aventurando-se a entrar em suas igrejas, naturalmente vocês irão esperar  ouvi-los pregar sobre este versículo: “Nem da vontade da carne, mas de Deus”; ou, quem sabe, sobre este outro: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai”. Vocês estão conscientes de que ao entrar nessas igrejas irão ouvir a respeito da eleição e de como todas as coisas procedem do Pai. Estes indivíduos estão equivocados, tanto quanto os outros, por darem demasiada importância a uma verdade e minimizando as demais. Toda a Bíblia e nada mais que a Bíblia, é a norma do verdadeiro cristão.

Desgraçadamente, muitos formam um círculo de ferro ao redor de suas doutrinas, e qualquer que ouse dar um passo além deste pequeno círculo, não será considerado como portador da sã doutrina. Neste caso, que Deus abençoe os hereges! Senhor; nos envie mais hereges! Alguns convertem a teologia em uma espécie de cilindro que contém cinco doutrinas que giram de modo indefinido; nunca se aventuram a outros temas. Toda a verdade deve ser anunciada. E se Deus tem escrito em Sua Palavra: “Quem não crer já está condenado”; isso deve ser pregado tanto quanto: “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”.


Cada um de nós, a quem foi confiado o ministério, deve procurar anunciar toda a verdade. Sei que pode ser impossível pregar toda a verdade. A alta colina da verdade tem nuvens que encobrem seu topo. Nenhum olho humano pode ver o cume; tampouco algum pé humano o tem pisado alguma vez. Todavia, podemos tentar pintar a nuvem, já que não podemos pisar o topo. Se há nuvens por sobre a montanha da verdade, digamos: “Nuvem e mistério há a seu redor!”. Não neguemos tal fato; e não pensemos em reduzir a montanha de acordo com nossa própria estatura, apenas porque não podemos ver acima dela, ou porque não conseguimos alcançar seu topo. Aquele que deseja pregar o Evangelho deve pregar todo o Evangelho. Aquele que deseja ser considerado um ministro fiel, não deve deixar de lado nenhum aspecto das Boas Novas.


Fonte: AME Cristo