sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Uma Demonstração do Arminianismo



Por John Owen


Dos dois extremos principais estudados pelos arminianos, por suas inovações na doutrina recebida pelas igrejas reformadas.

A alma do homem, pela razão de depravação natural, não é apenas sombria (Efésios 4:18; João 1:5; 1 Coríntios 2:14) como um nevoeiro de ignorância, pelo que ela é incapaz de compreender a verdade divina, mas também está armado com preconceito e oposição contra algumas partes da mesma¹, que são de um modo ou de outro mais altas ou contrárias que certos princípios falsos que estão arraigados a sua própria natureza. Como o desejo de autossuficiência foi à primeira causa de sua enfermidade, então esse conceito é a forma com que ele enfraquece; ele não faz mais nada a não ser lutar pela independência de qualquer poder supremo, que possa ajudar ou atrapalhar, ou controlar todas as suas ações. Esta é a raiz amarga de onde surgiram todas as heresias² e contendas miseráveis que tem perturbado a igreja, no que diz respeito ao homem labutar por sua própria felicidade, e sua isenção da providência divina sobre cada decisão do Todo-Poderoso. Todos os que usam de razões carnais para disputas incessantes contra a palavra de Deus chegam a seguinte questão, quer seja a primeira, ou a parte principal, as coisas neste mundo devem ser atribuídas a Deus ou o homem? Os homens, em sua maioria, têm sustentado esta primazia para si próprios³, exclamando que as coisas devem ser dessa maneira, ou que Deus é injusto, e seus caminhos desiguais. Nunca nenhum homem, “postquam Christiana gens esse caepit (depois que começou a ser cristão),”  ansiosamente se esforçou mais para edificar a Torre de Babel do que os Arminianos, os cegos protetores modernos da autossuficiência humana; todos cujas inovações das doutrinas recebidas pelas igrejas reformadas visam e tendem para uma dessas duas extremidades: —.

PRIMEIRO, para se isentarem da influência de Deus, — para se verem livres do domínio supremo da providência divina; não apenas para viverem e se afastarem d'Ele, mas para ter absoluta independência em todas as suas ações, onde o acontecimento de todas as coisas onde eles possuem algum interesse tenham relação considerável para com a probabilidade e a determinação de suas próprias vontades; — que tentativa mais abominável, um sacrilégio! Para este fim, — 

1° Eles negam a eternidade e imutabilidade dos decretos de Deus; para que isto seja estabelecido, eles temem que isto deva ser mantido dentro de limites, mas aquilo que o conselho divino determinou deve ser feito. Se os propósitos do Poderoso de Israel são eternos e imutáveis, o ídolo do livre-arbítrio deve ser restringido, a sua independência prejudicada; por esta razão eles preferem afirmar que Seus decretos são temporários e passíveis de mudança, sim, que Ele realmente altera seus decretos de acordo com as muitas mudanças que vê em nós: que conceito selvagem é esse, quão contrário à natureza pura de Deus, quão destrutivo aos Seus atributos, mostrarei no segundo capítulo.

2º Eles questionam a presciência ou o conhecimento de Deus; pois se Deus conhece todas as suas obras desde o inicio, se Ele certamente conheceu de antemão todas as coisas que viriam a acontecer, isso parece lançar uma infalibilidade de evento sobre todas as suas ações, que usurpa o território de sua nova deusa, a possibilidade; ou melhor, seria muito destronar a rainha do céu, e induzir uma espécie de necessidade de fazermos tudo, ou nada, pois Deus conhece tudo de antemão. Agora, que negar a presciência é destrutivo para a essência da Deidade, e puro ateísmo, deve ser declarado no terceiro capítulo.

3º Eles renunciam a providência Divina desse Rei das nações, negando seu poder eficaz e energético, em mudar seus corações, governar seus pensamentos, determinar suas vontades, e ordenar as ações dos homens, mas reduzem a providência a nada menos que um poder influente, limitado e usado de acordo com a inclinação e vontade de cada agente em particular; fazendo assim que Deus desejasse que muitas coisas fossem diferentes do que são, e que Ele é apenas um mero espectador ocioso da maioria das coisas que são feitas no mundo: a falsidade de tais afirmações deve ser provada no quarto capítulo.

4° Eles negam a irresistibilidade e poder incontrolável da vontade de Deus, afirmando que muitas vezes Ele quer fazer aquilo que não pode realizar sem a cooperação do homem, assim seu objetivo se torna uma ilusão; ou melhor, ao passo que Ele deseja, e quer salvar todos os homens, está nas mãos dos homens decidirem se serão salvos quer Ele queira salvar ou não; caso contrário, o ídolo deles, o livre-arbítrio teria uma Deidade pobre, se Deus pudesse, quando e como bem entender, ser capaz de controlar suas ações e vontades. Em relação a este assunto veja o quinto capítulo, “His gradibus itur in coelum.” ("Com estas medidas, nós vamos para o céu").  Há uma inclinação à corrupção natural, de modo idêntico a Adão, que tentou ser como Deus, ou pensou que Deus era como nós, o Salmo 50 é uma das passagens bíblicas que evidenciam que todos os homens inconvenientes serão julgados, pois não aprenderam a submeter suas vontades frágeis a vontade do Deus Todo-Poderoso, e levar cativar seus pensamentos a obediência da fé. [Veja o quinto capítulo da 2ª parte.]

SEGUNDO, O segundo fim em que a nova doutrina dos Arminianos se fundamenta é, purificar a natureza humana da imputação divina de ser pecaminosa, corrupta, inclinada ao mal e incapaz de fazer o bem; e assim para reivindicar para si próprios a força e capacidade de exercer toda a justiça que Deus pode requerer no estado em que eles estão, — de se tornarem diferentes de outros que não fazem uso tão bom de seus talentos naturais; então a principal e primeira parte no trabalho da salvação deles deve ser atribuída a eles mesmos; — um esforço orgulhoso luciferiano! Para este fim, —

1° Eles negam a doutrina da predestinação por meio da qual Deus afirma ter escolhido certos homens antes da fundação do mundo, para que fossem santos, e alcançassem a vida eterna por mérito de Cristo, para louvor da sua graça maravilhosa, — qualquer predestinação só pode ser a fonte e causa da graça ou glória, determinando as pessoas, de acordo com o bel-prazer de Deus, a serem salvas: pois esta doutrina estabelece a graça especial de Deus como a única causa de todo o bem que está nos eleitos mais do que [nos] reprovados; a predestinação faz da fé a dádiva e à obra de Deus, como diversas outras coisas, revelando que a idolatria ao livre-arbítrio não é nada, não possui valor algum. Portanto, o livre-arbítrio é uma heresia corrupta que tem substituído a predestinação, acerca disto veja o sexto capítulo.

2° Eles negam o pecado original e seu desmerecimento, que pode ser entendido corretamente, seria fácil compreender que, apesar de todo o trabalho do ferreiro, do carpinteiro, e o pintor, ainda assim o ídolo esculpido é um pedaço de bloco inútil; será descoberta a impotência de fazer o bem em nossa natureza, mas também por qual motivo não podemos: veja a sétima parte.

3° Se vos acusar nossa natureza humana com uma repugnância à lei de Deus, eles sustentarão a ideia que tal relutância estava também em Adão quando ele foi criado, e por isso vem do próprio Deus: veja o capítulo oito.

4° Eles negam a eficácia do mérito da morte de Cristo; — tanto que Deus pretendia pela morte de Cristo redimir Sua igreja, ou adquirir para si um povo santo; como também, que Cristo por sua morte mereceu e adquiriu para nós graça, fé, ou justiça, e força suficiente para obedecer a Deus, no cumprimento da condição da nova aliança. Não, isso era claramente a criação de uma arca para quebrar o pescoço de Dagom; de maneira que “consagração”, dizem eles, “pode ser em relação a nós mesmos”, se o sangue de Cristo foi aceito por Deus para nos conceder a fé? “Increpet to Deus, O Satan”! (Deus te repreenda, ó Satanás!). Veja os capítulos nove e dez.

5° Se Cristo reivindicará tal co-participação em salvar seu povo, daqueles que creem em seu nome, eles irão atribuir o privilégio de serem salvos a si próprios, que nunca ouviram tanto sobre o Salvador; e, de fato, em nada eles tentam fazer seu ídolo chegar mais perto do trono de Deus do que nesta blasfêmia: capítulo 11.

6° Roubando assim Deus, Cristo, e sua graça, que eles ataviam o ídolo do livre-arbítrio com muitas propriedades gloriosas de maneira inconveniente: será discutido no capítulo doze, onde você deve encontrar algo como, “movet cornicula risum, furtivis nudata coloribus” (“O corvo, despojado de suas cores roubadas, provoca nosso ridículo”).

7º Eles não afirmam sua nova Deidade como uma força salvadora apenas, mas também afirmam que ele é muito ativo e operante na grande obra de salvar nossas almas, —

Primeiro, nos preparar adequadamente para a graça de Deus, e assim induzir que isso seja devido a nós: capítulo treze.

Segundo, No efetivo trabalho de nossa conversão juntamente com ele: capítulo quatorze.

E, assim, por fim, com muito trabalho e fadiga, eles têm colocado um altar para seu ídolo no santo templo, à direita do altar de Deus, e sobre eles oferecem sacrifício para sua própria armadilha e arrasto, pelo menos, “nec Deo, nec libero arbitrio, sed dividatur (nem Deus, nem o livre-arbítrio, mas é para ser dividido),” — nem tudo a Deus, ou tudo ao livre-arbítrio, mas que o sacrifício de louvor, por todas as coisas boas, seja dividido entre eles.

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Notas: 
1. João 6:42, 7:52. “Natura sic apparet vitiata ut hoc majoris vitii sit, non videre.” (A natureza humana é tão prejudicada que parece que esta é uma grande falha não ver — Agostinho).
2. Pelágio . Escolástica Semipelagiana.
3. In hac causa non judicant secundum aequitatem, sed secundum affectum commodi sui.” (Neste caso, não julgar segundo a equidade, mas de acordo com a afeição de seus sentimentos— Lutero, de Servo Arbítrio).

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Tradução: Bereianos
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