domingo, 5 de maio de 2013

A Restauração de Pedro -

O assunto destas linhas trata da maneira como o Senhor restaura o seu povo quando ele se desvia. É abordado de forma compreensiva e é baseado na maneira como o Senhor restaurou a Pedro segundo o registro do evangelho de João 21.
Um estudo cuidadoso de João 21.1-19 nos capacitará a traçar três tipos distintos de restauração, a saber:                                                         Restauração de consciência, Restauração de coração e Restauração de posição.

RESTAURAÇÃO DE CONSCIÊNCIA


Não podemos estimar suficientemente o valor de uma consciência sã, clara e não reprovada. É muito óbvio que Pedro a possuía na tocante cena “junto ao mar de Tiberíades”. E contudo ele havia caído a pouco tempo antes – caído vergonhosa e gravemente. Ele havia negado o seu Senhor, praguejando e jurando. Todavia ele foi restaurado. Uma olhada de Jesus havia liberado as profundas fontes de seu coração e suscitado um fluxo de lágrimas de amargura.

 Contudo, não foram as suas lágrimas que fizeram isso, mas o amor que as provocou, o qual veio a ser a base de sua completa restauração de consciência. Foi o imutável e eterno amor do coração de Jesus, a eficácia divina do sangue de Jesus e o preponderante poder da advocacia de Jesus que conferiu à consciência de Pedro a intrepidez e a liberdade tão admiravelmente apresentada na memorável ocasião que está diante de nós.


Neste capítulo final do Evangelho de João, o Salvador ressuscitado é visto cuidando de Seus pobres, fracos e errantes discípulos. Ele valeu-Se das necessidades básicas deles para Se tornar conhecido aos seus corações em perfeita graça. Havia uma lágrima a ser enxugada, uma dificuldade a ser resolvida, um temor a ser aquietado, um coração despojado a ser contentado, uma mente descrente a ser corrigida?

 Jesus estava presente em toda a plenitude e multiplicidade de Sua graça para atender todas essas coisas. Quando eles tinham saído para passar uma noite em infrutífera labuta, o Senhor Jesus tinha os Seus olhos fixos neles. Sim esse mesmíssimo Jesus que tinha morrido na cruz para salvá-los de seus pecados, agora “estava na praia” para restaurá-los de seu desgarramento, reuni-los em volta de Si mesmo e satisfazer todas as suas necessidades.
Mas observemos minuciosamente as evidências de uma consciência completamente restaurada, como apresentada por Simão Pedro. Ele não pôde esperar pelo barco ou pelos seus companheiros-discípulos para estar aos pés de Jesus. 

Ele atirou-se ao mar, o que equivale a dizer: “Eu preciso ser o primeiro a estar com o meu Salvador ressuscitado”. Ninguém tem tal pretexto a não ser o pobre, vacilante e fracassado Pedro.


A confiança de Pedro era irrestrita, e isto veio a ser gozo para o coração de Jesus. O amor aprecia demonstrações de confiança; gosta de ser confiado. Que ninguém pense estar honrando Jesus ao ficar hesitando, permanecendo à distância, alegando ser indigno. Contudo é muito difícil para alguém que tem se desviado recobrar a sua confiança no amor de Cristo. 

Tal pessoa – pode ver claramente que um pecador é bem vindo a Jesus, não importando quão grande são ou quantos tenham sido os seus pecados. Mas a dúvida se interpõe por pensar que no caso de um cristão desviado a coisa é completamente diferente. Contudo, a Palavra de Deus diz: “Voltai, ó filhos rebeldes, eu curarei as vossas rebeliões” (Jeremias 3.22). 

O amor do coração de Jesus não sofre variação. Indubitavelmente é triste cair, errar, desviar-se, porém, é ainda mais triste quando, tendo sucumbido, duvidamos do amor de Jesus ou de Sua graciosa prontidão para nos restaurar novamente.


Amado leitor, você tem caído? Você tem errado? Você tem perdido o doce senso do favor divino? Se a sua resposta for afirmativa, o que você deve fazer? Simplesmente isto: “Volte!”. Esta é a palavra que Deus tem para o desviado. Volte em plena confissão, em auto-juízo e na mais plena confiança no infinito, imutável amor do coração de Cristo. Não meça o coração de Jesus com os seus próprios pensamentos. Satanás lhe manteria a uma distância de desalento desse precioso Salvador que lhe ama com um amor eterno. Mas você só tem de fixar o seu olhar no sangue, na advocacia e no coração de Jesus para dar uma resposta triunfante a todas as terríveis sugestões do inimigo e a toda inquietação de seu próprio coração. Lembre-se sempre que o Senhor Jesus ama ser confiado. 


RESTAURAÇÃO DE CORAÇÃO


O coração tem de ser restaurado assim como a consciência. O que muitas vezes ocorre é que, embora a consciência seja perfeitamente limpa quanto a certos atos, as raízes de onde esses atos brotam não foram alcançadas ainda. Os atos são vistos no exterior da vida diária, mas as raízes são ocultadas bem no fundo do coração. Elas podem ser desconhecidas para nós mesmos e para outras pessoas, mas estão totalmente desveladas aos olhos dAquele com quem temos de prestar contas.


Essas raízes devem ser alcançadas, expostas e julgadas; isso é necessário antes que o coração se encontre numa condição reta aos olhos de Deus. Observem o modo extremamente gracioso em que o nosso bendito Senhor age para alcançar as raízes no coração de Pedro, Seu querido e honrado servo: “Depois de terem comido” (João 21.15). 

Não antes. Não havia alusão ao passado, nada que pudesse causar um abatimento no coração ou trazer uma nuvem sobre o espírito, e isto enquanto uma consciência restaurada estava se deleitando na companhia de um amor que não sofre variação. Esta é uma excelente característica moral. Isso caracteriza o procedimento de Deus com todos os Seus santos. A consciência é colocada em descanso na presença de um amor infinito e eterno.


Mas é necessário que ocorra uma atuação mais profunda para alcançar a raiz das coisas no coração. Quando Simão Pedro, na plena confidência de uma consciência restaurada, lançou-se aos pés de seu Senhor ressurreto, ele recebeu aquele gracioso convite: “Vinde, comei”. Mas, “depois de terem comido”, Jesus toma Pedro à parte a fim de partilhar à sua alma a luz da verdade; o intento desse gesto é que ele pudesse discernir a raiz de onde todo o seu fracasso emanou.

 Essa raiz era a auto-confiança. Ela o levou a se colocar acima dos outros discípulos e dizer: “Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim” (Mateus 26.33-35).
Essa raiz tinha que ser exposta. Por isso, depois de terem comido, o Senhor disse a Pedro: “Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que estes outros?” (João 21.15). Esta era uma pergunta oportuna e ela foi bater no fundo do coração de Pedro. Três vezes ele havia negado o Seu Senhor e agora por três vezes o Senhor desafia o seu coração – porque a raiz precisa ser alcançada, caso se tenha em vista algum resultado bom e permanente.


Não adianta simplesmente ter a consciência purificada dos efeitos produzidos na vida prática. É necessário que também se faça o julgamento moral daquilo que os produziu. Isto não é suficientemente compreendido e tomado em consideração, e é por isso que as raízes estão sempre brotando novamente, dando os seus frutos com crescente poder. Isto nos dá a mais amarga e penosa obra, que poderia ser toda evitada se as raízes das coisas fossem julgadas e mantidas sob julgamento.


Conhecemos nossas raízes? Sem dúvida que é difícil, muito difícil conhecê-las. Elas são profundas e numerosas: orgulho, vaidade pessoal, cobiça, irritabilidade, ambição. Essas são algumas das raízes do caráter, a origem da motivação das ações sobre as quais uma censura apropriada deve ser praticada. Devemos deixar a natureza saber que o olho do auto-juízo está continuamente sobre ela. Temos de continuar com a luta sem interrupção. 

Talvez ocasionalmente tenhamos de lamentar algum fracasso, mas precisamos manter a luta, porque a luta é um sinal de vida. Precisamos recordar a realidade dos fatos: nenhuma coisa boa habita na carne. Que Deus o Espírito Santo nos fortaleça para esta vigilância contra a carne.


RESTAURAÇÃO DE POSIÇÃO


Quando a consciência tem sido completamente purificada e o coração, com suas muitas raízes julgadas, há uma preparação moral para o nosso perfeito caminho. O perfeito amor de Jesus tinha afugentado todo temor da consciência de Pedro. As Suas três perguntas tinham revelado as raízes no coração de Pedro. Agora Ele lhe diz: “Quando eras mais moço tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres. Disse isto para significar com que gênero de morte Pedro havia de glorificar a Deus. Depois de assim falar, acrescentou-lhe: Segue-me.”(João 21.18-19)


Foi com estas mesmas palavras que o Senhor havia começado com Pedro como Seu discípulo. Naquela ocasião ele também havia dito: “Segue-me” (Mateus 4.19). Eis aqui em duas palavras a senda do servo de Cristo: “ Segue-me”. O Senhor acabara de dar a Pedro a mais doce garantia de Seu amor e confiança. Ele havia, não obstante todos os fracassos passados de Pedro, confiado aos seus cuidados tudo aquilo que neste mundo era querido ao Seu coração de amor: os cordeiros e as ovelhas de Seu rebanho.

 Na prática, Ele lhe havia dito: “Se você tem afeto por Mim, apascenta os Meus cordeiros, pastoreia as Minhas ovelhas”. Agora, numa breve mas compreensível expressão vocal, Ele revela a Pedro o seu perfeito caminho: “Segue-me”.


RESTAURAÇÃO DE CAMINHO


Isto é suficiente e abrange tudo o mais. Se queremos seguir a Jesus, devemos manter continuamente os nossos olhos n’Ele. Devemos observar as Suas pegadas e andar nelas. Quando tentado à semelhança de Pedro a “voltar-se” para ver o que este ou aquele está fazendo, ou como o faz, precisamos ouvir as palavras de correção do Senhor: “Quanto a ti, segue-me” (João 21.20a e 22b). Este deve ser o nosso principal e todo envolvedor negócio, aconteça o que acontecer. Milhares de coisas podem surgir para perturbar e atrapalhar. O diabo nos tentará a olhar aqui e ali, a olhar para esta ou para aquela pessoa, a imaginar que podemos fazer melhor noutro lugar, ou a imitar o labor de algum companheiro de jornada. Tudo isto é rebatido por tais marcantes palavras: “Segue-me”.


O que para isso nos é necessário é a vontade subjugada – o verdadeiro espírito de um servo que espera no Mestre para conhecer a Sua mente. É mais fácil estar ocupado do que estar quieto. Quando Pedro era “mais moço” ele andava por onde queria; mas quando tornou-se mais “velho” ia para onde não queria. Que contraste entre o jovem, inquieto, ardente e vigoroso Pedro indo para onde bem queria e o velho, amadurecido, dominado e experiente Pedro indo para onde não queria (pois agora estava sujeito ao Senhor). Que misericórdia ter a vontade subjugada – ser capaz de dizer do fundo do 
coração: “Contudo, não se faça a minha vontade, e, sim, a tua” (Lucas 22.42)

C.H. Mackintosh