domingo, 12 de maio de 2013

Soberana Reprovação


por
Rev. Gise J. Van Baren

Há algo concernente ao decreto eterno de Deus da predestinação, e particularmente o decreto da reprovação, que parece imediatamente estimular a ira do homem. Mencione eleição ou reprovação, e o homem fecha os seus ouvidos. Mande para ele material sobre tal assunto, e ele te retornará com o comentário ácido, “Eu não quero tal besteira na minha caixa de entrada”. Até mesmo João Calvino, aquele notável Reformador e campeão da verdade da predestinação, é relatado como tendo chamado a reprovação de “aquele horrível decreto” (embora esta não seja uma tradução acurada da sua declaração). Por que há tal oposição a estes decretos de Deus? É, quem sabe, a razão de tal oposição a esta verdade, porque ela exalta o Deus soberano e ensina que o homem é apenas uma mera criatura? A verdade da predestinação coloca o homem eu seu devido lugar. É por causa disso que o homem tão fortemente se objeta a ela?

Há tal coisa como uma reprovação? Geralmente a reprovação é negada. Mas, você está disposto a fazer um estudo cuidadoso das passagens da Escritura sobre este ponto? O ensino da Escritura deve permanecer, porque ela é a Palavra de Deus.

Reprovação é aquela eterna vontade, bom prazer, ou propósito de Deus segundo o qual Ele determinou que algumas das Suas criaturas morais e racionais seriam lançadas no inferno para sempre, por causa dos seus pecados; e que este fato serviria a causa de Cristo e redundaria para a glória de Deus somente.

Antes de condenarmos a idéia da reprovação imediatamente, consideremos o que a Palavra de Deus declara. Há diversas passagens pertinentes que falam sobre este assunto. Possivelmente as declarações mais claras concernentes à reprovação podem ser encontradas em Romanos 9. Ali lemos de Jacó e Esaú, que antes de nascerem ou terem feito o bem ou o mal, Deus disse, “Amei a Jacó, mas odiei a Esaú” (v. 13). De Faraó, cujo coração Deus tinha endurecido para que ele não deixasse Israel sair do Egito, lemos, “Para isto mesmo te levantei, para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra” (v. 17). Romanos 9 menciona também que “Ele endurece a quem quer” (vs. 18), e fala de “vasos da ira, preparados para perdição” (vs. 22).

Que outra conclusão pode ser extraída destas passagens, senão que elas ensinam claramente que Deus reprova alguns para o inferno por causa do pecado deles? Deus endurece a quem Ele quer; Ele prepara alguns para destruição. Outras passagens da Escritura são igualmente claras. Lemos, por exemplo, em 1 Pedro 2:8, “... uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados”. Ou novamente, lemos em João 10:26, “Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito”. Estas e outras passagens mostram que Deus determina as ações dos homens pecaminosos (assim como Ele fez com Faraó no tempo de Moisés), e que estas ações foram eternamente determinadas por Deus.

As confissões das igrejas de fé Reformada enfaticamente ensinam esta verdade da reprovação. Lemos nos Cânones de Dordt, no Capítulo 1, Artigo 15: “ A Escritura Sagrada mostra e recomenda a nós esta graça eterna e imerecida sobre nossa eleição, especialmente quando, além disso, testifica que nem todos os homens são eleitos, mas que alguns não o são, ou seja, são passados na eleição eterna de Deus. De acordo com seu soberano, justo, irrepreensível e imutável bom propósito, Deus decidiu deixá-los na miséria comum em que se lançaram por sua própria culpa, não lhes concedendo a fé salvadora e a graça de conversão. Para mostrar sua justiça, decidiu deixá-los em seus próprios caminhos e debaixo do seu justo julgamento, e finalmente condená-los e puni-los eternamente, não apenas por causa de sua incredulidade, mas também por todos os seus pecados, para mostrar sua justiça. Este é o decreto da reprovação qual não torna Deus o autor do pecado (tal pensamento é blasfêmia!), mas O declara o temível, irrepreensível e justo Juiz e Vingador do pecado”.

Isto significa que o réprobo, não importa o que ele faça, seja o bem ou o mal, será condenado ao inferno? Deus não permita que tal seja o caso, ou que alguém ensine isto. Esta questão, contudo, é deliberadamente enganadora. Os réprobos são incapazes de fazer algo bom. Considere primeiro que todos os homens em Adão estão mortos em pecado (Romanos 5:12). Isto claramente significa que todo homem nascido neste mundo é totalmente incapaz de fazer algo bom e é inclinado a fazer todo mal (veja também Romanos 3). Não há nem mesmo a possibilidade remota de que boas obras, agradáveis ao nosso Deus, possam proceder de um pecador morto. Uma pessoa morta fisicamente pode beber ou comer? Muito menos pode um pecador realizar boas obras. A graça de Deus não é dada ao réprobo; eles não estão em Jesus Cristo; e, portanto, eles não podem fazer nada agradável a Deus.

Em segundo lugar, os réprobos sempre são condenados ao inferno eterno por causa dos seus próprios pecados. É verdade que Deus determinou qual será o fim deles — e que Ele assim o fez antes deles nem mesmo nascerem. De que outra forma alguém poderia interpretar as passagens citadas antes? Mas os ímpios são definitivamente lançados nos tormentos do inferno por causa dos seus próprios atos maus. Eles nunca poderão apontar o dedo para Deus, declarando, “Deus me forçou a fazer o que era contrário à Sua vontade; a culpa, portanto, reside em Deus e não em mim”. O ímpio réprobo peca conscientemente e desejosamente, e por causa desse pecar, eles certamente serão lançados na desolação eterna.

Um das muitas passagens da Escritura que indicam isto é encontrada em Lucas 11:49-51, “Por isso, diz também a sabedoria de Deus: Profetas e apóstolos lhes mandarei; e eles matarão uns e perseguirão outros; para que desta geração seja requerido o sangue de todos os profetas que, desde a fundação do mundo, foi derramado; desde o sangue de Abel até ao sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o templo; assim, vos digo, será requerido desta geração”.

Mas, você pergunta: Deus não é então injusto? Não é terrivelmente injusto da parte de Deus determinar que alguns devam perecer? Que tipo de Deus Ele é? Nós não podemos lançar tais acusações, amigo. Quem nós pensamos que Deus é? Será que nós pensamos que Deus deve se conformar ao nosso débil raciocínio? Desde quando o Deus Todo-poderoso deve a qualquer homem a vida eterna? Por que deveria o Soberano do céu e da terra ser obrigado a conceder Sua graça sobre todos? Deve Deus trazer toda criatura racional-moral para o céu? “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura, a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?” (Romanos 9:20). O oleiro tem poder sobre o barro, diz a Escritura, para fazer da mesma massa um vaso para honra e outro para desonra. (Romanos 9:21). Deus é injusto quando Ele faz, com os que são Seus, o que Ele acha apropriado? Eu confesso que não posso penetrar nas profundezas da sabedoria de Deus e explicar o porquê uma pessoa foi reprovada, e outra eleita. Tudo o que eu posso dizer, com a Escritura, é que Deus faz todas as coisas para o Seu bom prazer, para a glória do Seu Nome.

Outra questão se levanta. Por que, se Deus determina todas as coisas, deve haver algum ímpio réprobo? Por que Deus, desde antes da fundação do mundo, determinou que alguns seriam lançados no inferno por causa dos pecados que eles realizaram? Se Deus verdadeiramente dirige todas as coisas, Ele não poderia de fato impedir o pecado, e determinar que todos os homens desfrutariam as bênçãos da vida eterna? Estas são questões preocupantes.

Há diversas razões na Escritura do por que Deus reprova certas criaturas para o inferno eterno.

Em primeiro lugar, o decreto da reprovação deve de alguma forma servir para glorificar o Nome de Deus. Deus, o Soberano, dirige todas as coisas para que Sua glória possa ser mais plenamente revelada. Isto é verdadeiro com respeito a tudo, sem exceção. Os vinte e quatro anciãos de Apocalipse 4 não clamam: “Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder, porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas” (vs. 11)? Mas como, você pode perguntar, pode a reprovação servir para revelar a glória de Deus de uma melhor forma possível? Através do decreto da reprovação, Deus revela Seu eterno ódio e ira contra o pecado, e a punição dos que praticam a iniqüidade. Aparte do decreto da reprovação de Deus, isto nunca teria sido tão claramente revelado. Este contraste é sugerido em 1 João 1:5: “E esta é a mensagem que dele ouvimos e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma”. O mesmo é encontrado em João 1, especialmente no verso 5, “E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam”. Você objeta? Não tem este Soberano Oleiro poder sobre o barro também para formar vasos de desonra para servir para o Seu próprio prazer e para revelar Sua própria glória e bondade?

Em segundo lugar, uma pessoa pode entender a razão da existência de ímpios réprobos quando ele começa a ver todo o plano de Deus. Na Sagrada Escritura é muito evidente que o coração ou centro de todo o conselho ou plano de Deus é Cristo — e a igreja está em Cristo. Deus revelará Sua glória da mais alta forma possível reunindo um povo particular em Jesus Cristo, Seu Filho unigênito. Esta é a verdade da qual lemos em Efésios 1:4-6: “Como também nos elegeu nele (Cristo) antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em caridade, e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado”.

Isto poder ser comparado, com o objetivo de ilustrar, com a semente ou núcleo de uma noz. A semente ou o núcleo é a parte significante de toda a noz. Todavia, há também uma casca ao redor do todo. A casca não é comestível, todavia, ela tem uma função. Quando esta função acaba, a casca é quebrada e descartada. Assim é a maravilha de Deus revelada no reunir da igreja de Jesus Cristo. A causa de Cristo, o reunir da igreja, é servida por todas as coisas que acontecem. Não sem razão lemos em Romanos 8:28, “ E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto”. O todo da criação, todas as coisas que acontecem dentro da criação — fazem parte da casca que cerca o povo de Deus que está em Cristo. Esta casca tem o seu propósito e lugar — mas quando seu propósito for cumprido, ela será descartada.

Algo similar pode ser dito concernente à reprovação. O réprobo também deve servir o propósito de Deus no reunir e defender da igreja de Cristo. Os atos maus, nos quais estes ímpios buscam se opor a Deus e destruir Sua igreja, pode e na verdade cooperam para o benefício da igreja. A crucificação de Cristo é o melhor exemplo. Os ímpios buscavam remover Cristo desta terra. Eles fizeram planos para matá-Lo — e, de fato, eles O crucificaram fora dos muros de Jerusalém. Mas o resultado foi que o propósito determinado de Deus de salvar o Seu povo através do derramamento do sangue de Cristo foi realizado. Lemos em Atos 4:27-28, “Porque, verdadeiramente, contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer”.

Nós vemos então que a reprovação não é um decreto “horrível” de forma alguma. Nós vemos também que ela não é de certo modo igual à maravilha do decreto de eleição, nem forma um par com ela. Deus não declara arbitrariamente: “Eu quero lançar algumas pessoas no inferno, e Eu quero trazer algumas para o céu”. Deus não o permita que digamos isso! Mas Deus opera todas as coisas (tanto a criação como também este decreto de reprovação) para servir ao Seu propósito de trazer os eleitos, através do pecado e da graça, para a glória eterna no céu. Mesmo esta verdade da reprovação deve ser para o meu conforto e segurança neste mundo terrivelmente pecaminoso.

Pode ou deve este decreto de reprovação ser pregado pelos ministros da Palavra? Ou ele é um algum tipo de estrutura que deve ser guardado em oculto no quarto Reformado? Esta verdade da reprovação tende a desencorajar aqueles dentro da igreja e afastar aqueles que estão fora dela? Como o missionário pode sair em sua missão de labores e ensinar aos pagãos este decreto de reprovação? Se há tal coisa como um decreto de reprovação, não seria melhor permanecer silente sobre ele?

Sem dúvida é Cristo e Sua cruz que são o centro de toda a Palavra de Deus. E estas verdades devem ser sempre enfatizadas pelos ministros fiéis da Palavra. Mas o verdadeiro ministro da Palavra de Cristo não pode evitar ensinar algumas verdades, tais como a reprovação, só porque elas são desagradáveis aos homens. A Palavra de Deus não ignora esta verdade — como, então, um pregador da Palavra pode assim o fazer? Que ninguém tente ocultar esta verdade.

Devemos lembrar, também, que esta verdade do decreto de Deus de reprovação tem em vista instilar terror nos corações dos ímpios. Quando estava verdade é apropriadamente pregada, o ímpio tem o certo testemunho de Deus de que Ele recompensá-los-á segundo as suas obras más.

Finalmente, esta verdade não desencoraja a igreja? Não seria o caso de um cristão começar a pensar, “Talvez, apesar de tudo, eu sou um réprobo”? Deus nos livre de assim pensarmos. Alguém que está verdadeiramente preocupado com o seu próprio bem-estar espiritual, que busca e reconhece sinceramente diante de Deus a grandeza do Seu pecado — tal pessoa não vê em si mesma os frutos da reprovação, mas da eleição. Então, o cristão não deve ser aterrorizado pela reprovação até onde diz respeito à sua própria pessoa. Antes, esta doutrina também lhe dá um conforto e segurança indizível. A despeito de tudo o que o ímpio busca fazer para a igreja de Deus, o cristão sabe que Deus ainda tem controle e governo absoluto. O ímpio também pode servir somente para o Seu propósito eterno. E o final do ímpio, Deus tem determinado para a vindicação do Seu Nome. Não deveria a igreja constantemente ser assegurada deste glorioso fato na pregação da Palavra?

Oh, a maravilha da grandeza do nosso glorioso Deus! Inexplicável em Seus caminhos e em Seus julgamentos, antes dos mesmos nos serem descobertos por Ele mesmo! Possa Ele também permitir que nunca nos envergonhemos de manter esta Sua palavra, mesmo após Ele já nos tê-la revelado.


Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto