sexta-feira, 24 de maio de 2013

Você é justo?

por Tullian Tchividjian
“Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus”.2 Coríntios 5.21
Comportamento ético é um termo muito usado na psicologia que define a justiça exclusivamente por termos do que alguém faz ou deixa de fazer. Neste sentido, uma pessoa justa é aquela que faz coisas certas e evita as erradas. Uma pessoa injusta é a que faz coisas erradas e evitas as certas. Definida desta forma, justiça é uma qualidade que pode ser julgada pela observação do comportamento de alguém. Então, virtude e retidão são puramente questões de conduta externa, sem qualquer indício do que se passa dentro de você.“Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus”.2 Coríntios 5.21
William Hodern ilustra bem como a justiça é definida pelo mundo:
As instituições que fazem cumprir a lei estão preocupadas com um comportamento correto. Eles não se preocupam com o porquê das pessoas obedecerem à lei, desde que a obedeçam. A pessoa que não as quebra é justa aos seus olhos, independente da motivação que produziu o comportamento desejado.
No Sermão do Monte, Jesus quebra radicalmente essa definição de justiça. Ele ignora inteiramente o comportamento externo de uma pessoa e olha para o que está no coração. Jesus insiste que justiça não é simplesmente uma questão de o que fazemos ou deixamos de fazer, mas sim uma questão do por que nós fazemos isso ou por que não fazemos.
Há alguns anos atrás, quando meus filhos eram jovens, eles reuniam todas as crianças da vizinhança em nosso quintal para jogar futebol americano. E de vez em quando, um passe saía errado e ia parar na grama do vizinho. Meu vizinho (um idoso irritado, rabugento e mal-humorado) sempre vinha pra fora gritando com meus filhos e seus amigos dizendo que iria confiscar a bola se isso ocorresse de novo. Meus filhos, muito novos nessa época, sempre entravam em casa com os olhos cheios de lágrimas, os lábios trêmulos, por causa do medo que eles tinham desse vizinho. Bem, briguento que sou, muitas vezes eu desejei ir marchando até meu vizinho e falar umas verdades para ele. Eu queria deixar claro para ele que se ele gritasse com meus meninos de novo… bem, você entendeu. Todavia, eu nunca fiz isso. Eu o encarava de vez em quando, mas nunca fui à porta dele para falar isso. Alguns diriam que a minha opção por deixar meu vizinho quieto era um ato de justiça. Eu estava exercendo amor, paciência e autocontrole. Mas foi isso mesmo?
Somente eu e Deus (e agora você!) sabemos a verdadeira razão real de eu nunca ter ido atrás do meu vizinho: o risco potencial era muito alto para mim. Eu não queria problemas, não queria que ele chamasse a polícia, não queria que ele apresentasse uma queixa contra mim ou minha família na nossa associação de moradores, não queria ele fofocando de nós para as outras pessoas do bairro para que elas pensassem mal de mim. Além disso, todos sabiam que eu sou pastor e eu não queria manchar minha imagem. E assim por diante. Em outras palavras, a mesma coisa que fez a superfície parecer justa foi motivado por algo terrivelmente injusto: o egoísmo.
Então, a aparente “justiça” do meu ato foi destruída pela motivação que a inspirou. Não foi tão “justa” assim, para não dizer o pior.
Hodern continua dizendo isso muito claramente:
Antes de um assassinato ou adultério ter sido cometido, primeiro, existem as motivações da pessoa envolvida. Em seu coração há uma raiva assassina ou luxúria adúltera. O que Jesus diz no Sermão do Monte é que muitas pessoas podem ter essas mesmas motivações em seus corações sem mostrá-las em ações externas. Pode haver várias razões para agir contra nossas motivações, mas obviamente a razão mais comum é o medo das conseqüências. As leis de todas sociedades tornam perigoso cometer um assassinato e as leis e pressões sociais tornam custoso cometer um adultério. Portanto, quando uma pessoa se abstém de certa atitude, pode não ser por causa do seu coração puro, mas simplesmente por uma questão de auto-proteção. Jesus está dizendo que quando a motivação para não agir de acordo com um desejo é o egoísmo, essa pessoa é tão injusta aos olhos de Deus quanto a pessoa que cometeu o crime.
A razão disso ser tão importante é que muitos cristãos pensam que Deus se importa apenas que eles obedeçam. De fato, muitos acreditam que é muito mais honrável e, portanto, muito mais “justo”, quando obedecemos a Deus contra todos nossos desejos. De onde tiramos a idéia de que se fizermos tudo o que Deus nos diz para fazer, ainda que “nossos corações estejam longe dEle”, é algo para se orgulhar, algo admirável, louvável ou justo? Não me entenda errado, nós devemos obedecer mesmo quando não nos sentimos assim (espero que meus filhos, por exemplo, limpem seus quartos e respeitem sua mãe e eu, mesmo quando eles não se sintam assim). Mas não vamos cometer o erro comum de, orgulhosamente, igualar isso à justiça que Deus exige.
A verdade é que Deus não está preocupado com qualquer tipo de obediência. Ele está preocupado com certo tipo de obediência. O que motiva nossa obediência determina se o que praticamos é sacrifício de louvor ou não. Fazer o certo com o coração errado revela uma profunda injustiça, e não justiça. T.S. Eliot diz melhor: “A última tentação é a pior traição: ter a atitude correta pela razão errada”.
Se o que Deus procura é qualquer tipo de obediência, independente do que a motiva, então ele teria exibido os fariseus e exortado a todos nós para seguirmos seus exemplos e imitá-los. Mas ele não fez isso. Jesus os chamou de “sepulcros caiados” – limpos por fora, mas mortos por dentro. Eles obtiveram sucesso ao alcançar um “comportamento justo” e acharam que isso era o que mais importava para Deus. Mas Jesus disse, “Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade” (Mateus 23.28). De novo Jesus nos mostra que a verdadeira justiça é uma questão de coração – o que está dentro importa mais do que está fora. Isso é o que ele quis dizer em Mateus 5.20: “Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus”.
No Sermão do Monte, Jesus quer nos deixar livres ao mostrar nossa necessidade de uma justiça que nunca alcançaremos por nós mesmos, uma justiça impossível que está sempre além de nossa capacidade. O propósito do Sermão do Monte é demolir todas as noções de que podemos alcançar a justiça que Deus requer – ele trata de exterminar todas as tentativas de um comportamento moral autossuficiente.
Justiça externalizada é algo que todos podemos encontrar em nós mesmos com uma pequena autodisciplina e um pouco de auto-justiça. Mas Jesus quer que nós vejamos que, independente de quão bom o ato que estamos praticando, ou quão retos achamos que somos, quando vemos que “você, portanto, deve ser perfeito como o Pai celeste é perfeito” torna-se o padrão e não o “quanto eu tenho melhorado ao longo dos anos”, percebemos que estamos muito pior do que imaginávamos, que a injustiça é inevitável e que mesmo as coisas mais nobres que fazemos tem algo que deva ser perdoado.
Jesus me mostra que o que quer que eu pense que seja a minha maior depravação, na verdade, minha situação é bem pior
Em Mateus 5.17-48, Jesus me mostra que o que quer que eu pense que seja a minha maior depravação, na verdade, minha situação é bem pior: se eu acho que é raiva, Jesus me mostra que na verdade é assassinato; se eu acho que é lascívia, Jesus me mostra que na verdade é adultério; se eu acho que é impaciência, Jesus me mostra que na verdade é idolatria. Dolorosamente, isso revela minha justiça como um castelo de cartas, que é o que ela realmente é. Quebra meu coração e mostra minha profunda necessidade de uma ajuda externa, uma “justiça alheia”.
Somente quando nosso entendimento de justiça “excede a dos escribas e fariseus”, e vai além da conduta exterior, iremos perceber a impossibilidade de alcançarmos justiça por nós mesmos e a necessidade de recebermos a justiça de Cristo. Não há nada que pecadores odeiam mais do que ouvirem que não há nada que eles possam fazer, que tudo foi tirado de suas mãos, que não importa quão difíceis têm sido suas tentativas, o seu melhor nunca é bom o suficiente. Mesmo assim, nunca seremos livres até que desistamos de lutar por uma justiça que  reivindiquemos como nossa.
No sermão intitulado “The Death of Self” [“A morte do Eu”], Gerhard Forde mostra como a obra de Cristo a nosso favor finalmente destrói qualquer presunção de que exista algo aceitável que possamos trazer a Deus:
Na traição do Gêtsemani, quando a multidão vem contra Jesus com espadas e pedaços de pau, os discípulos queriam fazer alguma coisa. Eles ainda queriam fazer sua parte para Deus. Eles queriam tomar as espadas, arriscar suas vidas, talvez, e lutar. Um deles saca a espada e arranca a orelha de um dos agressores. Mas Jesus não queria nada disso: “Guarde sua espada”, ele diz, “não há nada que você pode fazer”. No relato de Lucas, o próprio Jesus estende a mão para desfazer o que o discípulo fizera, e cura o homem ferido. Sem dúvida, nesse ponto tudo dentro de nós grita em protesto juntamente com os discípulos. Não há nada que possamos fazer? Não poderíamos pelo menos organizar uma marcha de protesto em nome de Deus? Não poderíamos tentar uma audiência com Pilatos? Não poderíamos tentar “influenciar as estruturas” que detinham o poder? Qualquer coisa, mesmo que pequena? Mas a resposta inflexível retorna, ”Não, não há nada que vocês possam fazer, absolutamente nada. Se houvesse algo a ser feito, meu Pai mandaria legiões de anjos para lutar!” Mas não há nada a ser feito. E quando ele chegou ao último momento de amargura, quando estes bons homens “justos” finalmente perceberam que não havia nada que pudessem fazer, eles o abandonaram e fugiram.
Você consegue perceber isso? Você consegue ver o que está escondido nestas palavras, nestes eventos, é que a própria morte que você tem tanto medo vem até você? Quando eles finalmente viram que não podiam fazer nada, eles o abandonaram e fugiram diante desta verdade desconcertante. Você, que presume que pode fazer negócios com Deus, você enxerga isso? Você consegue ver que essa morte de si mesmo, em última análise, não é algo que você pode fazer? Para esse ponto é que Deus tem reservado para si, de uma vez por todas, a responsabilidade da sua salvação. Aqui, não há nada que você possa fazer agora a não ser, como dizem as palavras daquele velho hino: “subir a escalada triste do calvário”, ficar com seus braços impotentes ao seu lado e tremer diante do “milagre, o sacrifício do próprio Deus se completou! Está consumado; ouvi-lo chorar, aprender com a morte de Jesus Cristo!”
Na cruz, “Deus invadiu o último reduto de auto-suficiência, a última presunção que você poderia fazer alguma coisa para ele… Ele morreu em seu lugar! Ele fez isso. Ele fez. Está tudo terminado e acabado entre você e Deus. Ele morreu em seu lugar, morreu quando você deveria morrer. Ele fez dessa maneira para salvar você. Ele tomou tudo sobre si. O fato de que não há mais nada que se possa fazer é a morte do ego e o nascimento da nova criatura” (Forde).
Sendo tudo, ele se tornou nada para que você, sendo nada, pudesse ter tudo. Você não trouxe nada para a mesa, a não ser a sua injustiça que faz necessária a justiça de Cristo. A perfeita justiça de Cristo foi livremente creditada na sua conta falida para sempre (o que, teologicamente, chamamos de “imputação”). O evangelho é uma boa notícia para aqueles que finalmente foram esmagados pelo peso de tentarem fazer “justiça” por conta própria.
O fato de que não há mais nada que se possa fazer é a morte do ego e o nascimento da nova criatura
Traduzido por André Carvalho | iPródigo.com | Original aqui