domingo, 15 de dezembro de 2013

Corpo e Mente - F. B. Hole


“Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus. E agora, na verdade, sei que todos vós, por quem passei pregando o reino de Deus, não vereis mais o meu rosto. Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos. Porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus”. Atos 20:24-27 

Quando o apóstolo Paulo faz um resumo de seu ministério diante dos anciãos de Éfeso, ele parece dividi-lo em três partes. Ele lhes pregou o “evangelho da graça de Deus”. Este tem sido também o primeiro grande assunto de meu ministério. Mas então ele fala de ter passado entre eles -- referindo-se ao círculo dos santos -- “pregando o reino de Deus”. Em terceiro lugar ele fala de sua fidelidade em nunca deixar de “anunciar todo o conselho de Deus”. Temos o Evangelho de Deus e o Conselho de Deus, e não devemos omitir o que vem entre um e outro, o Reino de Deus. 

O Reino de Deus não significa apenas que o rejeitado Jesus é por direito o Rei, e que está chegando a hora em que Ele irá assumir o Seu trono, mas o ponto é que por onde quer que Paulo andasse entre os santos ele tomava o cuidado de mostrar a interconexão da verdade que apresentava. O que ele queria dizer aos irmãos era que eles tinham sido introduzidos no reino divino por um nascimento divino e estavam agora sob uma lei divina, a influência de Deus que havia sido estabelecida em seus corações e que significava isto e aquilo e aquilo outro. Ele lhes mostrava o significado. 

Não temos a verdade do Reino de Deus enfatizada como deveria. Falamos das coisas celestiais, mas qual é o reflexo da luz que ela derrama sobre nós neste mundo? O apóstolo Paulo pregou o Reino de Deus e apresentou a verdade como algo a ser praticado. Você deve depender dela e assim queremos que seja. Em Roma “Paulo ficou dois anos inteiros na sua própria habitação que alugara, e recebia todos quantos vinham vê-lo; pregando o reino de Deus, e ensinando com toda a liberdade as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Cristo, sem impedimento algum” (At 28:30-31). 

Depois de apontar aos crentes romanos o modo como apresenta o Reino de Deus, Paulo mostra a eles a mudança que isso iria fazer em suas vidas, o novo caráter que resultaria disso neles como participantes do reino. No início do capítulo 12 temos aquilo que forma a base de tudo isso e que irá nos capacitar a praticar estas exortações. É preciso que exista um momento em nossa história quando o nosso coração, constrangido pelas misericórdias de Deus apresentadas no final do capítulo 11 de Romanos, renda-se totalmente a Ele. 

“Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”. Rom 12:1-2 

Somos objetos da misericórdia divida. Nada merecíamos, mas somos enriquecidos com praticamente tudo. Se o sentimento da misericórdia divina tomar posse do nosso coração veremos que o nosso corpo, que é o veículo por meio do qual o pecado operava e nos dominava e que era por nós usado para expressar todos os nossos desejos pecaminosos, deve ser agora apresentado como um sacrifício vivo, algo total e realmente devotado a Deus, que esteja absolutamente à Sua disposição, separado para Ele e para o Seu serviço, e aceitável a Deus, entendendo que é este o nosso culto racional. 

No sexto capítulo de Romanos, onde encontramos uma verdade bem similar a esta, acredito que temos o verbo“apresentar” (Rm 6:13, 16,19) de duas maneiras. Primeiro, o Reino é apresentado como um fato consumado, absolutamente manifestado; segundo, em um sentido mais presente, como se manifestando. Será que existiu um momento em nossa história pessoal quando chegamos ao ponto de apresentar o nosso corpo como sacrifício vivo, como algo que agora é dedicado a Deus, separado para o Seu uso e para nunca mais ser reclamado de volta? Este é o nosso único culto racional. 

Isto é com respeito ao corpo, mas o versículo seguinte nos fala também de nossa mente ou entendimento. Não estejam conformados a este mundo -- não sejam amoldados de acordo com esta era. Talvez você ache que eu vá falar da moda, do vestir. Bem, suponho que sim. Reconheço que somos muito influenciados pelas modas, por isso deveríamos ser cuidadosos em nos vestirmos de maneira piedosa. Mas na verdade a questão aqui não é basicamente de como vestir, mas trata-se de uma questão relacionada à mente ou entendimento. “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento”. 

Buscamos neste assunto algo mais fundamental. Não tenham suas mentes ou entendimentos amoldados por esta era. Existem modas terríveis habitando nas regiões mentais -- o mundo científico está cheio de modas. Os cientistas parecem ser mais devotos à deusa da moda do que quaisquer outras pessoas. Nem mesmo as modas de Paris exercem tanta influência sobre as mentes como fazem as modas científicas. Não devemos ser amoldados ou conformados com esta era, mas sim transformados. Neste sentido não devemos ser reformistas, porém não-conformistas, transformados pela renovação da nossa mente. Deus começa atacando esta fortaleza que fica bem no centro de nosso ser. 

Alguns talvez peçam que eu seja mais prático e diga como ter nossa mente transformada. A resposta é: mergulhando-a na Palavra de Deus em oração e em dependência do Espírito de Deus. À medida que avançamos em oração no estudo do Livro Sagrado é maravilhoso ver como nossa mente vai sendo moldada em conformidade com Deus. Desaprendemos nossos próprios pensamentos e começamos a nos embeber dos pensamentos divinos. Assim nossa mente é renovada e desfrutamos da “boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”

Será que é tão difícil assim decidir o que é a vontade de Deus? O ponto aqui não é que você possa descobrir qual é a vontade de Deus, mas que você possa experimentar a vontade de Deus. Como é que você experimenta algo? Você prova, faz um teste. Alguém diz a você que se você misturar determinadas substâncias químicas elas irão reagir de uma determinada maneira e você prova e testa para ver se funciona. Não se trata de mera teoria, trata-se de algo que é provado na vida diária -- trata-se de uma proposição prática. 

É assim também que eu e você devemos experimentar qual é a vontade de Deus, e à medida que provamos qual seja ela, descobrimos que é “boa, agradável e perfeita”. Eventualmente aprenderemos que nossa própria vontade é ruim, imperfeita e desastrosa ao extremo. Nós naturalmente amamos nossa própria vontade, por isso eu e você precisamos ter nossa vontade colocada de lado para podermos provar e experimentar na prática qual é a “boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Quão meramente teórico é nosso cristianismo? Quanto da bendita vontade de Deus nós já provamos e experimentamos na prática? Nós a experimentaremos se apresentarmos o nosso corpo como um sacrifício vivo a Ele, e se a nossa mente não estiver dominada pelo modo de pensar do mundo. 

Assim é que nos colocamos sob a influência da Palavra de Deus. Digo, com reverência, que passamos a pensar os Seus pensamentos e a nos submetermos a Ele. Tendo a nossa mente renovada e o nosso corpo apresentado como sacrifício vivo, todas essas coisas maravilhosas detalhadas no capítulo 12 de Romanos serão uma consequência. Se em nossa própria história nunca tivemos um momento em que apresentamos o nosso corpo como um sacrifício vivo, que o Senhor possa nos dar a alegria de desfrutarmos de um momento assim e que isto possa acontecer antes de nos deitarmos hoje à noite para dormir. Para a honra do Seu Nome.



F. B. Hole - (1874 -1964)