quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Lendas dos Judeus-AS PRIMEIRAS COISAS CRIADAS

A CRIAÇÃO: As primeiras coisas criadas
No princípio, dois mil anos antes do céu e da terra, sete coisas foram criadas: a Torá, escrita com fogo negro sobre fogo branco e repousando sobre o colo de Deus; o Trono Divino, erguido no céu e que mais tarde estaria sobre as cabeças dos Hayyot; o Paraíso à direita de Deus, o Inferno à sua esquerda; o Santuário Celestial diretamente à frente de Deus, tendo em seu altar uma jóia gravada com o Nome do Messias, e a Voz que clama: “Voltai, filhos dos homens”.
Quando decidiu a respeito da criação do mundo, Deus tomou conselho com a Torá. A recomendação dela foi:
– Oh, Senhor, um rei sem um exército e sem cortesãos e atendentes não merece o nome de rei, pois ninguém há perto para prestar-lhe a homenagem devida.
A resposta agradou a Deus sobremaneira. Dessa forma ele ensinou todas as coisas terrenas, através do seu divino exemplo, a nada empreender antes de primeiro consultar os seus conselheiros.
O conselho da Torá foi dado com algumas reservas. Ela duvidava do valor de um mundo terreno por causa do pecado do homem, que iria por certo negligenciar os seus preceitos. Porém Deus dissipou as suas dúvidas, dizendo a ela que o arrependimento havia sido criado muito antes, e que os pecadores teriam oportunidade de corrigir sua conduta. Além disso, o serviço do templo seria investido de poder de remissão, e o Paraíso e o inferno destinavam-se a fazerem sua obrigação como recompensa e punição. Finalmente, o Messias era designado a trazer salvação, que poria um fim a toda a pecaminosidade.
Porém nem mesmo este mundo teria permanecido, se Deus tivesse executado o seu plano original de governá-lo sob o princípio da justiça estrita.
Tampouco foi este mundo habitado pelo homem a primeira das coisas terrenas criadas por Deus. Ele fez diversos mundos antes deste, mas destruiu a todos, porque não se satisfez com nenhum antes de criar o nosso. Porém nem mesmo este mundo mais recente teria permanecido, se Deus tivesse executado o seu plano original de governá-lo sob o princípio da justiça estrita. Foi apenas quando viu que a justiça por si mesma traria a ruína do mundo que ele associou à justiça a misericórdia, e fez com que ambas governassem conjuntamente. Desta forma, desde o princípio de todas as coisas prevaleceu a bondade divina, sem a qual nada teria continuado a existir. Se não fosse por isso, as miríades de espíritos malignos já teriam colocado um fim às gerações dos homens. Porém a bondade de Deus ordenou que a cada mês de Nisã, por ocasião do equinócio da primavera, os serafins aproximem-se do mundo dos espíritos, e os intimidem de modo a que eles temam fazer mal ao homem.
Além disso, se Deus em sua bondade não tivesse concedido proteção aos fracos, os animais mansos já teriam sido há muito tempo eliminados pelos animais selvagens. No mês de Tamuz, por ocasião do solstício do verão, quando a força do beemote está no seu auge, ele urra tão alto que todos os animais o ouvem, e por um ano inteiro permanecem assustados e temerosos, e seus atos tornam-se menos ferozes do que seriam por natureza. Novamente, no mês de Tisri, por ocasião do equinócio do outono, o grande pássaro ziz bate suas asas e dá o seu grito, para que todas as aves de rapina, águias e abutres, recuem de medo, e passem a temer lançaram-se sobre os outros e aniquilá-los em sua cobiça. Além disso, não fosse a misericórdia de Deus, o vasto número de peixes grandes teria rapidamente colocado um fim nos pequenos. Porém por ocasião do solstício do inverno, no mês de Tebet, o mar torna-se agitado, pois o leviatã espirra água, e os grandes peixes ficam inquietos; eles refream seu apetite, e os pequenos escapam da sua rapacidade.
Finalmente, a bondade de Deus se manifesta na preservação de seu povo, Israel. Ele não poderia ter sobrevivido à inimizade dos gentios, se Deus não tivesse designado para ele protetores, os arcanjos Miguel e Gabriel. Quando acontece de Israel desobedecer a Deus, e é acusado de mau comportamento pelos anjos de outras nações, ele é defendido pelos seus guardiões designados, com resultado tão positivo que os outros anjos passam a temê-los. Uma vez que os anjos das outras nações estão aterrorizados, as próprias nações não ousam levar avante seus perversos intentos contra Israel.
Para que a bondade de Deus reinasse na terra como no céu, aos Anjos da Destruição foi designado um posto na extremidade mais distante dos céus, do qual não devem nunca se mover, enquanto os Anjos da Misericórdia circundam o trono de Deus, às suas ordens.
Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.